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	<title>Arquivos Entrevista - Sindicato dos Bancários</title>
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	<description>Sindicato dos Bancários</description>
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		<title>Confira a entrevista do presidente do SEEB/VCR no programa Inclusão em Foco</title>
		<link>https://bancarios.com.br/confira-a-entrevista-do-presidente-do-seeb-vcr-no-programa-inclusao-em-foco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Oct 2025 14:45:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta quarta-feira (29), o presidente do Sindicato dos Bancários de Vitória da Conquista e Região, Leonardo Viana, foi o convidado do programa Inclusão em Foco, apresentado pelo jornalista Júnior Patente, na Mega Rádio. Na oportunidade, Leonardo abordou a sua trajetória de atuação na luta por direitos e igualdade, desde o movimento estudantil até os seus dois &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="aligncenter wp-image-70370 size-full" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2025/10/291020251038572.jpg" alt="" width="852" height="630" /></p>
<p>Nesta quarta-feira (29), o presidente do Sindicato dos Bancários de Vitória da Conquista e Região, Leonardo Viana, foi o convidado do programa Inclusão em Foco, apresentado pelo jornalista Júnior Patente, na Mega Rádio.</p>
<p>Na oportunidade, Leonardo abordou a sua trajetória de atuação na luta por direitos e igualdade, desde o movimento estudantil até os seus dois mandatos à frente do Sindicato.</p>
<p>Confira a entrevista:</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://castbox.fm/app/castbox/player/id5517390/id861051006?v=8.22.11&amp;autoplay=0" width="100%" height="500" frameborder="0"></iframe></p>
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		<item>
		<title>Entrevista &#124; Christian Dunker: neoliberalismo fez cuidado com saúde mental ser tão genérico quanto tratar diabete</title>
		<link>https://bancarios.com.br/entrevista-christian-dunker-neoliberalismo-fez-cuidado-com-saude-mental-ser-tao-generico-quanto-tratar-diabete/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Mar 2025 12:12:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Devidamente reconhecida pela medicina mundial desde 1973, a síndrome de burnout começou a ser citada popularmente nos últimos anos. Inclusive, agora em 2025 foi quando o Ministério da Saúde incorporou a síndrome ao rol de doenças ocupacionais no Brasil. Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular na Universidade de São Paulo (USP), a pandemia foi um evento importante para &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="aligncenter wp-image-67901 size-large" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-17-at-18-1024x732.webp" alt="" width="618" height="442" /></p>
<p>Devidamente reconhecida pela medicina mundial desde 1973, a síndrome de burnout começou a ser citada popularmente nos últimos anos. Inclusive, agora em 2025 foi quando o Ministério da Saúde incorporou a síndrome ao rol de doenças ocupacionais no Brasil.</p>
<p>Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular na Universidade de São Paulo (USP), a pandemia foi um evento importante para tornar o conceito mais conhecido pelas pessoas. No entanto, ele relaciona a expansão do diagnóstico a uma trajetória de aproximadamente 50 anos.</p>
<p>Ele usa o ano de 1973 como um marco. É quando burnout é reconhecida pela medicina e também é o ano em que há uma reforma no manual da Associação Americana de Psiquiatria.</p>
<p>“Essa reforma começou a convidar a gente para olhar para os nossos sintomas no discurso mais popular, no discurso mais amplo, como se a gente tivesse uma diabete mental”, explica em entrevista ao <a href="https://www.brasildefato.com.br/programas/bem-viver/"><strong>Conversa Bem Viver</strong></a> desta terça-feira (18).</p>
<p>O que o professor quer dizer é que “começou a se entender [que] os transtornos mentais são genéricos”, portanto os tratamento também deveriam ser.</p>
<p>A relação com a diabetes é pelo fato da doença ser tratada de maneira sistemática: “Ah eu to me sentindo aqui, então em vez de insulina, o que tá me faltando é serotonina, ou então toma dopamina que passa, toma serotonina…diminui o cortisol que passa…”</p>
<p>Com tudo isso, Dunker relaciona outro evento importante que se instalou a partir de 1973.</p>
<p>“A gente vai lembrar, olha só que curioso, aconteceu uma novidade no mundo da economia política, que foi a primeira vez em que se implantou de maneira ampla, geral e irrestrita o neoliberalismo no Chile de Pinochet, depois veio a Inglaterra de Margaret Thatcher, depois veio a Estados Unidos de Reagan e isso terminou no Consenso de Washington, ou seja, agora é assim que a gente trabalha”.</p>
<p>“Bom, 40, 50 anos depois o que aconteceu quando chegou a covid? As pessoas mudaram o seu cotidiano. E quando a gente muda o cotidiano, olha melhor pra ele”.</p>
<p>“As pessoas perceberam como elas estavam vivendo e elas perceberam como a gente estava em uma relação de aumento do sofrimento pra gerar mais desempenho”.</p>
<p>Na entrevista ele detalha o que é burnout, quais são os sintomas em cada fase e explica melhor essa relação do neoliberalismo com o burnout.</p>
<p><iframe loading="lazy" style="border-radius: 12px;" src="https://open.spotify.com/embed/episode/2jUvSApxLiKidkcoGls0Z5?utm_source=generator" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<h4 id="h-confira-a-entrevista-na-integra" class="wp-block-heading">Confira a entrevista na íntegra</h4>
<p><strong>Afinal o que é burnout?</strong></p>
<p>Burnout é uma síndrome, como são quase todas as afecções dos transtornos mentais. A gente escolhe essa palavra para justamente designar algo que é como uma doença, que nos faz sofrer, que tem sintomas, mas que não é exatamente como uma doença, por isso a gente chama de transtorno.</p>
<p>Burnout foi descrito em 1973 e ele permaneceu como uma categoria semioficial até muito recentemente, quando foi incluído na Classificação Internacional das Doenças, a CID.</p>
<p>Durante esse período a gente foi em certa forma desligando os nossos transtornos dos nossos contextos de desencadeamento e causalidade.</p>
<p>Então é como se a nossa forma de vida, nossa forma de trabalhar, nossa forma de estudar, nossa forma de amar, nossa forma de desejar, não tivesse uma relação assim tão clara, tão definida, com os nossos sintomas.</p>
<p>O burnout vem então como uma espécie paradigma para isso, como uma espécie de alerta que diz: “olha gente, tem doenças, tem transtornos que têm que ver com maneira como a gente se comporta, como a gente lida, como a gente enfrenta o trabalho”.</p>
<p><strong>Como ela se desenvolve na pessoa?</strong></p>
<p>Ele tem várias fases, ao final a gente pode caracterizá-lo como um estado de exaustão, um estado de colapso.</p>
<p>Mas ele não começa assim. Ele começa com um aumento do pensamento, da conversa sobre o tema trabalho. Um aumento da ansiedade com a produtividade, com a empregabilidade, com o medo de perder e com o desejo de prosperar e subir no trabalho.</p>
<p>Então ela não brinca mais direito com os filhos, porque ela está sempre cansada. O casamento talvez perca um pouco do elã porque ele tem que pensar no trabalho, justamente, para manter o casamento, para manter a família.</p>
<p>Os amigos ficam para depois, ou seja, aqueles que não estão no universo do trabalho vão perdendo a importância.</p>
<p>Isso vai caracterizando uma pessoa que, para alguns, pode ser até muito focada. Numa segunda fase em que a pessoa já está mais orientada para si, já tem problemas nos seus círculos de relação, começam a aparecer adoecimentos recorrentes.</p>
<p>Fiquei gripado, depois peguei uma tenossinovite que não passa, daí tem dor nas costas, agora tem um problema no estômago e esses pequenos eventos psicossomáticos vão se acumulando.</p>
<p>Junto, começam a surgir aqueles estados limítrofes. Qual a diferença entre um humor irritado e uma depressão? Um humor explosivo e uma depressão? Qual a diferença entre uma pessoa que está sempre preocupada e uma síndrome ansiosa? Com a diferença entre uma pessoa que está sempre reativa do ponto de vista de afetos, e uma pessoa muito sensível?</p>
<p>A terceira fase é quando todo mundo em volta reconhece que ali tem um problema. A pessoa começa a se comportar de uma maneira egoísta.</p>
<p>Tem um traço muito curioso que é quando ela vai se anestesiando para o sofrimento dos outros. Ela vai entrando em um espécie de tubo egoístico, em que ela só se preocupa consigo, e aqueles que estão em volta, inclusive dentro do trabalho, começam a ser tratados como peças, como objetos.</p>
<p>Ou então o estado que vai levando a jornadas muito longas de trabalho, às vezes exigidas pelo empregador, o que é péssimo, que tem que ver com o nosso capitalismo contemporâneo de plataforma, mas às vezes imposta pela própria pessoa.</p>
<p>Ela vai chegando mais cedo, ela vai saindo mais tarde, ela vai se irritando com quem tira férias, ela vai puxando mais serviço para si, ela vai centralizando decisões…</p>
<p>E um detalhe: esse ‘a mais’ muitas vezes é premiado. É essa pessoa que vai ser colocar na gerência, essa pessoa que vai ganhar uma promoção, e isso reforça ainda mais esse engajamento alienado, vamos chamar assim, no trabalho, e que termina com uma situação muito difícil.</p>
<p>Quando o burnout se instala, não adianta mais você tomar uma semana, ir descansar uma semana… não vai ser mais uma semana.</p>
<p>Foi um processo crônico e na sua fase final a pessoa já não consegue mais lidar com tanto tempo acelerando a máquina de si, então ela frequentemente começa a usar substâncias com a finalidade até terapêutica, mas de dopagem.</p>
<p>E aí a pergunta que não quer calar: a empresa que foi vendo isso acontecer, que foi patrocinando isso acontecer, que foi premiando o sujeito para chegar a esse ponto. Qual a responsabilidade?</p>
<p>Realmente tem que ser um encargo para que esse funcionário tenha um afastamento realmente longo para se recuperar.</p>
<p><strong>Quanto desse aumento de casos de burnout e da popularização do termo tem a ver com a pandemia? ou seria mais importante falar do neoliberalismo e do capitalismo contemporâneo de plataforma?</strong></p>
<p>A gente tem que pensar num caso como esse de forma multidimensional e de forma histórica.</p>
<p>Em 1973, quando foi descrito o burnout pela primeira vez, existe um marco importante. Se a gente olhar para esse mesmo ano, ele tem dois acontecimentos muito significativos.</p>
<p>Um é a renovação do nosso manual psiquiátrico, usado amplamente no mundo, inclusive com influência sobre as definições da CID, que é o manual da Associação Americana de Psiquiatria.</p>
<p>Em 1973 fez uma reforma tirando todas as referências a etiologia, ou seja, qual é a causalidade, portanto, desligando sofrimento em forma de vida, desligando sintomas do como é que você ama, como é que você está no mundo, e produzindo diagnósticos, vamos dizer assim, onde a dimensão convencional é muito forte.</p>
<p>Ou seja, reunir regularidades e chamar isso de depressão, depois reúne outras características e define isso como ansiedade e por aí vai.</p>
<p>Essa reforma começou a convidar a gente para olhar para os nossos sintomas no discurso mais popular, no discurso mais amplo, como se a gente tivesse uma diabete mental.</p>
<p>“Ah em vez de insulina, tava me faltando serotonina. Então, toma serotonina. Diminui o cortisol que passa…”</p>
<p>A gente começou a se entender a partir de que os transtornos mentais são genéticos, então o que eu posso fazer? Eu posso fazer um pouco de exercício, posso me alimentar melhor…</p>
<p>É como se fosse uma externalização da causalidade psicológica dos sintomas, da relação entre os sintomas e a vida daquela pessoa, da relação entre os sintomas e o que aconteceu com ela, em termos de traumas.</p>
<p>Em 1973 aconteceu uma novidade no mundo da economia política, que foi a primeira vez em que se implantou, de maneira ampla, geral e irrestrita o neoliberalismo no Chile de Pinochet, depois veio a Inglaterra de Margaret Thatcher, depois veio os Estados Unidos de Reagan e isso terminou no Consenso de Washington, ou seja, agora é assim que a gente trabalha.</p>
<p>Bom, daqui a 40, 50 anos o que a gente vai dizer sobre quando chegou a covid? As pessoas mudaram o seu cotidiano. E quando a gente muda o cotidiano, você olha melhor pra ele.</p>
<p>As pessoas perceberam como elas estavam vivendo e elas perceberam como a gente estava em uma relação de aumento do sofrimento pra gerar mais desempenho.</p>
<p>Então, recolher-se em casa gerou esse distanciamento e foi muito importante. Em segundo o próprio recolhimento, ele gerou condições, vamos dizer assim, de indução ao patógeno. Então aumentou a depressão para um, aumentou a ansiedade para o outro, aumentou aquilo que a pessoa já sofria antes, tornou a vulnerabilidade mais expressa, mais visível, mais patente.</p>
<p>Quer dizer, a covid funcionou como uma espécie de curto-circuito para a gente perceber tudo isso junto. Que a nossa maneira de olhar para a saúde mental não estava boa, que a gente estava se dopando para conseguir resistir a esse sistema e a gente estava trabalhando de um jeito que a vida estava ficando muito pequena.</p>
<p>Então, a partir daí, a gente está num momento em que um velho paradigma não dá mais, não funciona mais e a gente não tem o novo.</p>
<p>A gente sabe que nesse novo, provavelmente a atenção e o cuidado ao sofrimento vão ser muito importantes. Provavelmente a escuta vai ser muito importante, o sentimento de você estar pertencendo a uma comunidade, a um corpo, a um projeto, vai ser muito importante.</p>
<p>Mas como isso tudo se liga? Numa diagnóstica, em novas terapias, ainda não está dado.</p>
<p><strong>Então quais são os caminhos a serem seguidos?</strong></p>
<p>É um caminho ético e político. Ele é ético na medida que a gente precisa implantar uma cultura do cuidado, uma cultura do cuidado com si.</p>
<p>A maior parte do que a gente chama de autocuidado hoje não é autocuidado. É método de corrida, fazer exercício, etc. Isso é bom, é ótimo, mas isso não é autocuidado. Isso muitas vezes é disciplina, é método, é mais policiamento da pessoa em cima de si, aliás, muitas vezes feito sem cuidados, a base do porrete, a base de me forçar, uma relação de violência comigo.</p>
<p>Então estou falando de desenvolver uma cultura de cuidado, como a gente desenvolveu uma cultura do cuidado com a saúde. Faça exames, faça check-up, não engorde demais, cuide com o álcool. Isso tá posto pra gente, né? Mas a gente não tem um equivalente quando a gente olha pra saúde mental.</p>
<p>Então a gente vê pessoas em organizações em rotas de colisão, de choque, de autodestrutividade e acaba sendo conivente. Ou seja, tem essa dimensão ética do cuidado e tem a dimensão política da organização coletiva, para dizer, “olha, tem certas coisas que a gente tem que evitar”.</p>
<p>Não tem que evitar gordura trans? Tem [também] que evitar uma coisa chamada microgestão. Empresa que usa microgestão, que fica controlando cada centímetro que aquele funcionário faz ou não faz, é temeroso.</p>
<p>Daqui a dez, vinte anos a gente dizia “olha como as pessoas faziam, as pessoas planejaram banheiros que uma pessoa não conseguia ficar mais de três minutos porque era para aumentar a produção”.</p>
<p>Essa dimensão ética de um lado, política de outro, ela convoca algumas diretrizes. Primeiro lugar que a gente tem que fazer algo antes do sintoma. Não adianta. Você só poder se manifestar e dizer “eu preciso de ajuda” se você tiver uma depressão ou ansiedade.</p>
<p>Por que a gente precisa de um diagnóstico para cuidar?</p>
<p>A saúde mental se faz no território. Não adianta me encaixar chamando especialistas, tem que olhar ali naquela casa, naquela escola, aquela empresa. Que recursos que a gente tem aqui? Onde é que estão os pontos de escuta? onde é que estão os pontos de recomposição? onde é que está a escuta transformativa? quem são essas pessoas?</p>
<p>Nem sempre são os líderes, os gerentes, os donos. Às vezes é aquela pessoa que tem uma posição mais humilde, mas ela é fundamental para a saúde mental daquele grupo.</p>
<p>A gente nem olha pra isso, tudo invisível.</p>
<p>Fonte: Brasil de Fato.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “O estigma associado ao tratamento ainda é grande”</title>
		<link>https://bancarios.com.br/entrevista-o-estigma-associado-ao-tratamento-ainda-e-grande/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jan 2024 12:23:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistamos o médico psiquiatra, graduado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria, Ciro Novais. O objetivo é alertar os bancários e bancárias sobre os sintomas iniciais que podem indicar a presença de um possível adoecimento mental. Como a campanha Janeiro Branco pode influenciar ou apoiar as pessoas que &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="https://bancarios.com.br/entrevista-o-estigma-associado-ao-tratamento-ainda-e-grande/whatsapp-image-2024-01-19-at-17-17-15/" rel="attachment wp-att-61673"><img loading="lazy" class="wp-image-61673 alignleft" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-19-at-17.17.15.jpeg" alt="" width="536" height="513" /></a>Entrevistamos o médico psiquiatra, graduado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria, Ciro Novais. O objetivo é alertar os bancários e bancárias sobre os sintomas iniciais que podem indicar a presença de um possível adoecimento mental.</strong></p>
<p><strong>Como a campanha Janeiro Branco pode influenciar ou apoiar as pessoas que buscam ajuda para problemas de saúde mental?</strong> Ainda existe preconceito com os portadores de transtornos psiquiátricos. Apesar de observarmos alguma melhora, o estigma associado ao tratamento ainda é grande. Campanhas como o Janeiro Branco, assim como o Setembro Amarelo, ajudam a desmistificar os transtornos psiquiátricos e consequentemente ajudar na redução dos danos à sociedade por procura dos pacientes ao tratamento adequado.</p>
<p><strong>Dar visibilidade aos transtornos mentais ajuda a reduzir o preconceito?</strong> Sem dúvida. Já existe comprovação que falar sobre esse tema ajuda na conscientização da necessidade de procurar por tratamento.</p>
<p><strong>Quais sintomas podem servir de alerta para a necessidade de buscar ajuda?</strong> Como regra geral, as mudanças de comportamento demostram a necessidade de procurar ajuda. Normalmente, o sofrimento psíquico é de fácil detecção. Porém, o estigma associado ao tratamento ainda inibe muito a procura de ajuda. Daí, a importância de se falar a respeito desse assunto.</p>
<p><strong>Quem está diagnosticado com transtorno de ansiedade ou depressão deve ser afastado do trabalho?</strong> Pessoas com transtorno depressivo ou de ansiedade geralmente tem prejuízo na sua funcionalidade. Nem sempre está associado a uma condição do trabalho. Contudo, em alguns casos, impossibilita o trabalho por algum tempo ou permanentemente.</p>
<p><strong>Como a pessoa pode conviver com os sintomas, sendo portadora da depressão ou ansiedade? </strong>Em quase todos os casos, o tratamento melhora bastante a qualidade vida. Em casos mais graves o acompanhamento de perto possibilita um alívio significante dos sintomas.</p>
<p><strong>Como as pessoas em volta podem ajudar a pessoa adoecida?</strong> Com acolhimento e respeito.</p>
<p><strong>Como deve ser enfrentado o preconceito em relação ao adoecimento mental, tendo em vista que a sociedade estigmatiza essas pessoas, inclusive em tratamento?</strong> Falando bastante sobre o tema. Em praticamente todos os grupos sociais temos portadores de transtornos psiquiátricos, falar sobre o tema com mais frequência é apenas tornar corriqueiro o que já devia ser tratado com mais normalidade, como as outras doenças em geral.</p>
<p><strong>Como manter o bem-estar mental e prevenir o adoecimento?</strong> Não existe regra, mas, em geral, manter uma rotina saudável, sem exageros e com atividade física regular, ajuda a prevenir as doenças mentais. A informação também ajuda na intervenção precoce evitando quadros mais graves.</p>
<p><em><strong>As opiniões expressas não refletem, necessariamente, o posicionamento da diretoria do SEEB/VCR.</strong></em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Silvia Federici: &#8216;Os movimentos feministas mais poderosos do mundo hoje estão na América Latina&#8217;</title>
		<link>https://bancarios.com.br/silvia-federici-os-movimentos-feministas-mais-poderosos-do-mundo-hoje-estao-na-america-latina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Dec 2023 11:55:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://bancarios.com.br/s/?p=61132</guid>

					<description><![CDATA[<p>Em São Paulo para lançar seu novo livro, Além da pele (Editora Elefante), a filósofa italiana Silvia Federici, uma das mais influentes pensadoras e ativistas do feminismo anticapitalista, considerou que os movimentos contra a desigualdade de gênero “mais poderosos do mundo” estão, atualmente, na América Latina. Citando lutas de camponesas e indígenas por território, o &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="aligncenter size-full wp-image-61133" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image_processing20231212-147413-71b40k.webp" alt="" width="702" height="400" /></p>
<p>Em São Paulo para lançar seu novo livro, Além da pele (Editora Elefante), a filósofa italiana Silvia Federici, uma das mais influentes pensadoras e ativistas do feminismo anticapitalista, considerou que os movimentos contra a desigualdade de gênero “mais poderosos do mundo” estão, atualmente, na América Latina.</p>
<p>Citando lutas de camponesas e indígenas por território, o movimento Ni una menos na Argentina e interpretações feministas sobre o endividamento como uma das formas contemporâneas do capitalismo confiscar o tempo futuro, Federici ressalta que o principal desafio das lutas atuais é que estejam conectadas com as mudanças materiais das condições de vida.</p>
<p>De tradição marxista autônoma, a italiana de 81 anos é autora de O ponto zero da revolução, Reencantando o mundo e O calibã e a bruxa, sua obra mais conhecida. Nela, Federici examina como a transição para o capitalismo mecanizou as vidas para o trabalho e, por meio de formas diferentes de coerção, impôs especificamente às mulheres a transformação de seus corpos em objetos sexuais e máquinas reprodutoras.</p>
<p>Em Além da Pele, Silvia centra sua análise no corpo, que defende ser “a esfinge a ser interrogada e sobre a qual há de se atuar no caminho da mudança social e individual”. No livro, Federici se contrapõe à filósofa Judith Butler, que entende o gênero como performance, e propõe que “mulher” segue sendo uma categoria necessária para a política feminista.</p>
<p>“É claro que sempre temos uma escolha em tudo o que fazemos. Mas a forma como o conceito de performance é usado dá a ideia de que a decisão de performar o gênero é algo voluntário. Isso não reflete que o gênero define formas muito específicas de expectativas que restringem totalmente a vida e as escolhas das mulheres”, afirmou ao Brasil de Fato.</p>
<p>“Se queremos mudar a condição das mulheres de forma significativa, temos que mudar a condição material de nossas vidas. Então, não precisamos apenas fazer escolhas diferentes. Temos de criar um mundo diferente”, resume.</p>
<p>Confira a entrevista em vídeo:<br />
<iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/BXLWswvIsv0?si=lDt6carVHvyuxm9P" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Nascida em Parma (Itália), Silvia Federici foi para os Estados Unidos no fim dos anos 1960 e lá foi cofundadora do coletivo Wages for housework [Salários para o trabalho doméstico]. Ali constituiu as bases da sua visão crítica das tarefas reprodutivas como um trabalho que produz trabalhadores. “O que vocês chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”, diz um famoso slogan do coletivo.</p>
<p>Viveu na África nos anos 1980, onde se envolveu na organização Women in Nigeria (Mulheres na Nigéria) e nas lutas contra as políticas de austeridade impostas no país pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Atualmente, Silvia é professora emérita da Universidade de Hofstra, em Nova York, e também lança no Brasil o livro Quem deve a quem? (Editora Elefante), que organiza junto com as argentinas Verónica Gago e Luci Cavellero.</p>
<p>Em conversa com o Brasil de Fato no hotel onde se hospedou na capital paulista, Federici levantou os motivos pelos quais considera que o movimento feminista deu protagonismo ao corpo. “Talvez porque as mulheres perceberam como seus corpos foram apropriados, expropriados pelo Estado, de formas mais invisíveis e profundas do que os corpos dos homens”, expôs. “A maneira como vivenciamos isso é totalmente organizada, estruturada e introjetada por relações de poder”, descreve Silvia.</p>
<p>“Acho que o movimento feminista trouxe isso para a luta pela revolução. Por isso, realmente revolucionou o conceito de corpo de uma forma que nenhum outro movimento jamais fez”, salienta.</p>
<p>Confira a entrevista:</p>
<p>Brasil de Fato: É comum que lutas contra as opressões raciais ou de gênero sejam rotuladas como “identitárias” e vistas por setores da esquerda não apenas como separadas, mas como menos importantes do que a “luta de classes”. Como você vê essa questão da identidade?</p>
<p>Silvia Federici: Para mim, a questão da identidade está profundamente enraizada nos processos históricos e na organização social de nossas vidas. Por exemplo, o trabalho é uma identidade. Portanto, a identidade não é algo abstrato. É feita por expectativas sociais, pelo trabalho, pela geografia, por condições que estão realmente enraizadas em toda uma textura política e econômica. É por isso, também, que não podemos mudar nossa identidade sem mudar nossa condição material de vida.</p>
<p>Por exemplo, o movimento feminista transformou a imagem da mulher como serva do homem, que tem que ser mãe para ser socialmente aceita, que se sacrifica, que tem de colocar suas necessidades em último lugar.</p>
<p>Essa mudança de identidade veio também da luta contra o confinamento e a desvalorização do trabalho doméstico. Com a ideia de que se trata de uma forma de produção: o trabalho doméstico, na verdade, produz trabalhadores. Portanto, acho que foi assim que a mudança ocorreu.</p>
<p>Nessa discussão sobre o uso da categoria “mulher”, você argumenta que “a negação de uma possibilidade de identificação social ou política é um caminho para a derrota”, certo?</p>
<p>Sim, veja, a forma como minha mãe pensava sobre as mulheres como uma identidade é muito diferente da forma como eu percebo, por causa da luta que travamos. Mas a luta não é para mudar apenas uma identidade em abstrato, é para mudar a identidade por meio da transformação das nossas condições materiais de vida.</p>
<p>Sobre isso, você considera que, em parte, o movimento feminista não foi capaz de conectar a luta pela legalização do aborto, por exemplo, com as condições materiais da vida das mulheres, né?</p>
<p>Sim, em parte. Acho que houve uma tremenda mudança com a possibilidade de ter o direito ao aborto em muitas partes do mundo. É uma grande vitória. Sem o movimento feminista, não teríamos esse direito. Da mesma forma, não houve luta suficiente pelo direito de também sermos mães.</p>
<p>Já em meados de 1980, vimos nos EUA o movimento social pela justiça produtiva. Em sua maioria, tratava-se de um movimento de mulheres afrodescendentes que historicamente tiveram a maternidade negada. Desde a escravidão e ao longo de séculos. A maternidade foi negada a essas mulheres não só por causa da esterilização, mas também por não terem os recursos para criarem seus filhos. Assim, as mulheres negras desafiaram o movimento feminista e a ideia de que o direito ao aborto é uma escolha. Elas disseram que isso é apenas parte da escolha. Escolha é poder decidir: quero ou não quero ter filhos?</p>
<p>Aqui no Brasil, a brutalidade policial contra a juventude negra também é uma das formas pelas quais é tirado das mulheres negras o direito de criar seus filhos.</p>
<p>Exatamente. Porque a juventude negra, evidentemente, é a que questiona mais radicalmente a legitimidade da norma institucional, que ainda é colonial.</p>
<p>Como você vê o movimento feminista hoje?</p>
<p>Há movimentos feministas. É muito evidente que os movimentos feministas mais poderosos do mundo atualmente estão na América Latina. São movimentos que entenderam muito bem que não é possível mudar positivamente a condição das mulheres se não mudarmos essa sociedade regida pelo capitalismo, a colonialidade, o racismo.</p>
<p>Há exemplos na Argentina, no México, no Brasil. Vemos movimentos feministas, por exemplo, conseguindo conectar questões relacionadas à destruição ecológica com movimentos anticoloniais.</p>
<p>Estão desenvolvendo também uma leitura feminista da política econômica como, por exemplo, do Banco Mundial e do FMI, o uso do endividamento para criar novas formas de escravidão com meios financeiros. É o que as mulheres na Argentina estão fazendo hoje.</p>
<p>Que outras experiências concretas você pode citar, pensando também nos principais desafios que os movimentos feministas têm hoje?</p>
<p>Acho que há muitos processos que são novos em comparação com os anos 1970. Atualmente há muitas formas de feminismo popular na África, na América Latina e na Ásia.</p>
<p>Nas últimas duas décadas, vimos o surgimento internacional de um movimento muito poderoso de trabalhadoras domésticas, predominantemente migrantes, que colocou de volta sobre a mesa a questão do trabalho doméstico, o valor desse trabalho, o fato de que ele mantém a sociedade em funcionamento. Há uma organização na Espanha chamada Território Doméstico cujo slogan é: “sin nosotras, nadie se mueve”. Sem nós, ninguém se move.</p>
<p>Por outro lado, temos, por exemplo, muitas feministas que se dedicam a ser incluídas em áreas dominadas por homens, muitas vezes esquecendo que, a menos que também enfrentemos as questões de reprodução, da criação de filhos e do cuidado dos idosos, não conseguiremos mudar. Porque esses trabalhos ainda são feitos pelas mulheres, e são ainda desvalorizados; e o trabalho ainda molda a vida de nós, mulheres, onde quer que estejamos.</p>
<p>Agora, articularam esse movimento internacional, com muitas formas de organizações. Tem sido muito poderoso. Também posso destacar o surgimento do movimento de mulheres indígenas, e não apenas na América Latina, mas também nos Estados Unidos.</p>
<p>Anos atrás, vimos um movimento muito forte de mulheres indígenas impedindo a construção de um oleoduto em Dakota do Sul. Durante meses organizaram um enorme acampamento que parou a obra, a despeito de condições terríveis: clima frio, polícia por toda parte com cachorros, usando hidrantes, etc. O acampamento chegou a sete mil pessoas.</p>
<p>Isso se deve realmente ao fato de ter sido um grande movimento de mulheres e de seu nível de conhecimento sobre como reproduzir a vida cotidiana mesmo em condições mais difíceis. É algo que nenhum outro movimento poderia ter alcançado.</p>
<p>Há também movimentos de camponesas, como as que estão na linha de frente da Via Campesina, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil. Muitas, em princípio, não eram feministas. Elas mesmas me disseram. Tornaram-se feministas porque perceberam que, para poder lutar, precisavam ter autonomia, precisavam não ser consumidas pelos homens de sua comunidade. Não ter sua energia esgotada.</p>
<p>Em um dos artigos do livro, você menciona que considera um erro estarmos lutando apenas contra as coisas, ao invés de lutar para construir algo. Muitas vezes, no entanto, a impressão é que precisamos responder a ataques constantes. A brutalidade policial de que falamos ou o genocídio em Gaza, por exemplo. Como escapar disso?</p>
<p>Precisamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Há momentos de sair às ruas, protestar, mobilizar-se e organizar-se contra algo, mas isso não pode ser tudo. Porque – e acho que o movimento feminista é intuitivo e aprendeu isso desde o início – se não mudarmos também a nossa vida cotidiana, não poderemos sustentar a luta.</p>
<p>A luta não pode se limitar a momentos de potência que estão fadados a se dissipar. Tem que ser também uma luta de construção. Não podemos mudar o que existe a menos que o substituamos por algo diferente.</p>
<p>Tem um exemplo simples que sempre me impressionou. Toda vez que uma greve de luta trabalhista, por exemplo, ia além dos esquemas sindicais tradicionais e se tornava uma luta de resistência até o fim, nessas grandes greves que os trabalhadores colocavam tudo em jogo, arriscavam tudo&#8230; então, imediatamente, a vida cotidiana das pessoas mudava: como elas começam a se reunir, a pôr a vida em comum, a comer juntas, a compartilhar coisas. A própria vida cotidiana é transformada. E é isso que estou dizendo. Isso tem de acontecer em uma base mais ampla e mais consciente.</p>
<p>Para sustentar uma luta de longo prazo contra esse regime monstruoso que é o capitalismo, também temos de começar a transformar a maneira como organizamos nossa vida cotidiana. Porque a maneira como organizamos nossa vida cotidiana é enfraquecedora, e é assim que o capitalismo se organiza.</p>
<p>A família nuclear, a propaganda, o individualismo, o pensar só em si mesmo, a privacidade&#8230; Tudo isso que nos vendem como uma forma de liberação é, na realidade, uma forma de enfraquecimento. É somente com outras pessoas que podemos expandir nossa imaginação sobre o que é possível.</p>
<p>O que você defende como “militância alegre”?</p>
<p>É com as outras pessoas que nos nutrimos de energia, através do amor, da afetividade, das relações, no fazer coisas juntos, de não nos sentirmos sozinhos. Assim nos transformamos e vamos para mais um dia de luta.</p>
<p>Não significa que você não sofra, porque você paga um preço quando luta contra essa sociedade violenta. Mas a luta também tem de ser alegre. Se a luta é sofrimento, mais dor, mais trabalho, mais fardo, então temos de repensá-la. Não podemos continuar pensando em revolução daqui a 500 anos. Se sua vida está ruim agora, temos de mudar agora. Não podemos continuar adiando as revoluções para um tipo de futuro que nunca sabemos se virá.</p>
<p>E a vida das pessoas é miserável demais para acrescentar mais trabalho. A luta não pode ser apenas mais trabalho. É preciso que haja também algo que abra uma janela para um novo mundo. Abrir algo que nos dê um gostinho dessa sociedade que queremos construir, de outra sociedade já existente, a partir do presente.</p>
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		<title>Entrevista: &#8216;Neoliberalismo tornou a vida insalubre; estilo de vida deve ser repensado&#8217;, diz Vera Iaconelli</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Oct 2023 12:08:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na era da informação rápida, do consumismo exacerbado e do trabalho exaustivo, a sociedade tem recorrido cada vez mais aos medicamentos ansiolíticos e antidepressivos. Uma pesquisa divulgada neste ano pelo Conselho Federal de Farmácia aponta que a venda desses produtos aumentou 58% entre os anos de 2017 e 2021. A psicanalista Vera Iaconelli aponta que a “lógica capitalista e individualista, &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="aligncenter size-full wp-image-60063" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image_processing20231009-19846-1litn5l.jpeg" alt="" width="800" height="420" /></p>
<p>Na era da informação rápida, do consumismo exacerbado e do trabalho exaustivo, a sociedade tem recorrido cada vez mais aos medicamentos ansiolíticos e antidepressivos.</p>
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<div>Uma pesquisa divulgada neste ano pelo Conselho Federal de Farmácia aponta que a venda desses produtos aumentou 58% entre os anos de 2017 e 2021.</div>
</div>
<p>A psicanalista Vera Iaconelli aponta que a “lógica capitalista e individualista, do cada um por si” tem sido a tônica do novo modelo de sociedade. “O sujeito vai sendo apagado, e isso tem um preço muito grande. A partir do neoliberalismo, isso se potencializa de uma forma gigantesca”, considera.</p>
<p>Iaconelli lembra que há estudos, inclusive, que apontam para uma falta de especialistas capazes de tratar pessoas com questões de saúde mental. “Hoje, se a gente tivesse todos os “psis” – psicólogos, psicanalistas, psiquiatras – atendendo a população, ainda assim não haveria serviço suficiente para a demanda que existe”, ressalta.</p>
<p>“Significa que a gente está vivendo uma situação tão insalubre na realidade de vulnerabilização dos serviços, do enxugamento do estado, que a gente precisa começar a pensar numa frase do Tom Zé, que me ocorreu agora: ‘ao persistirem os médicos, consulte o sintoma’”, explica Iaconelli.</p>
<p>A psicanalista é a convidada desta semana no <strong>BdF Entrevista</strong>, que lembra o Dia Internacional da Saúde Mental, neste 10 de outubro. Na conversa, Iaconelli fala, entre outros temas, sobre seu novo livro, <em>O manifesto antimaternalista</em>, que defende uma nova convenção para a maternidade, que tem esgotado as mulheres.</p>
<p>“O que a gente observa é que a maternidade está entrando em colapso, porque as mulheres já não conseguem mais exercer tantas funções ao mesmo tempo. O que está acontecendo é que as mulheres estão começando a entender que são elas que estão oprimidas por uma situação, e não elas que têm que correr atrás de corresponder a isso”, explica Iaconelli.</p>
<p>“Agora a mulher fala assim: ‘eu quero ser mãe, mas eu quero ser pai do meu filho, eu quero ter uma vida, eu não quero abrir mão’. Para ser mãe, as mulheres sempre acharam que tinham que abrir mão de uma vida. E hoje elas falam assim: ‘nossa, eu fui enganada, não era para ser assim não’.</p>
<p>Confira a entrevista na íntegra:</p>
<p><strong>Brasil de Fato: Você está lançando o teu livro, <em>O manifesto antimaternalista</em>. Apesar do nome, ele não é contra a maternidade, é, na verdade, por uma nova maternidade apoiada por outros entes da sociedade, certo? </strong></p>
<p><strong>Vera Iaconelli</strong>: É, exatamente. Porque as pessoas não conhecem esse termo maternalismo, que é um termo que vem da sociologia, as pessoas interpretam que poderia estar falando contra a maternidade. Não é disso que se trata, se trata, ao contrário, de defender a maternidade, pensando como a gente pode tirar certas ideologias que sobrecarregam as mulheres no papel de mães. Como a gente pode repensar a forma como a gente entende a maternidade hoje.</p>
<p>O que a gente observa é que ela está entrando em colapso, porque as mulheres já não conseguem mais exercer tantas funções ao mesmo tempo. Então, o antimaternalismo é uma certa forma de entender a maternidade hoje, o que está levando a maternidade ao colapso.</p>
<p><strong>Ainda há essa questão de uma mulher que opta por não ser mãe ter esses conflitos na sociedade? Uma regra que era tida como o caminho natural da vida?</strong></p>
<p>Há, as mulheres se queixam muito disso. O que mudou é que as mulheres têm mais convicção de dizer não, não quer dizer que elas não sofram com as expectativas: “Ah, por que você não quer? Você tem algum problema físico? Não encontrou o homem certo? Qual seu problema?”.</p>
<p>As pessoas querem saber porque ela escolheu isso, achando que deveria existir alguma patologia implícita aí. O que modifica é que as mulheres estão assumindo que não querem ter filhos, mas as expectativas continuam.</p>
<p><strong>E o que essa escolha por não ter filhos implica na vida dessas mulheres? </strong></p>
<p>Às vezes as pessoas falam assim: “Ah, a pessoa não vai ter filhos e depois ela vai se arrepender”. Mas a gente também vê muitas pessoas que têm filhos e se arrependem. Tem um livro que se chama <em>Mães Arrependidas</em>, de uma jornalista israelense [Orna Donath], no qual ela entrevista inúmeras mulheres que depois de anos, embora amem seus filhos &#8211; não gostariam que eles não existissem -, se arrependem do estilo de vida que passam a ter a partir da entrada na maternidade.</p>
<p>Claro, pode ser que lá na frente você fale: “Ah, eu gostaria de ter tido”. Porque na nossa cabeça tem sempre uma vida paralela, “numa vida paralela não ia ser jornalista, eu ia ser outra coisa, ia ser dançarino, ia fazer teatro”, sei lá.</p>
<p>A gente tem sempre uma fantasia, principalmente na velhice, de que se a gente tivesse feito outro caminho, casado com outra pessoa…Então, fica essa ideia de “talvez eu me arrependa lá na frente”. Mas pode acontecer nos dois casos. São sempre apostas que só depois a gente vai saber no que elas vão dar.</p>
<p><strong>Você começa o livro trazendo sua experiência familiar. Esse livro é também sobre a sua relação com a maternidade? </strong></p>
<p>Necessariamente, porque eu acho que quando a gente faz uma escolha ao longo da vida e a gente vai reiterando essa escolha, ela diz respeito à nossa história, diz respeito a questões inconscientes também. No meu caso, em relação à minha família, à minha questão sobre a origem, que está colocada desde o começo por conta da minha mãe ter sido adotada na maternidade onde ela nasceu, uma adoção à brasileira, eu começo o livro contando isso, mas depois também como mãe, como mulher, com as minhas duas filhas, que hoje são jovens adultas, tudo que eu passei para conciliar o casamento, a vida pessoal, o trabalho, a maternidade, que foi muito investida, mas também um trabalho muito investido.</p>
<p>E na clínica como psicanalista, três décadas ouvindo as mulheres, se havendo com essa conciliação também. Foi nessa mistura de coisas que a minha pesquisa se deu, sempre voltada para a psicanálise e a parentalidade. Eu tentei responder algumas questões que vieram da clínica, da teoria e também da minha vida pessoal através desse último livro.</p>
<p><strong>Quando a gente se propõe a escrever, se debruça sobre um filme, um livro, qualquer que seja uma produção que a gente está fazendo, nós construímos críticas a nós mesmos no processo. Como é que foi para você escrever esse livro e se confrontar com a tua maternalidade? </strong></p>
<p>Quando você escreve e vai desenvolvendo o teu pensamento, vai se expondo terrivelmente, e as coisas que não consegue entender, provavelmente são coisas que você não consegue entender na tua própria história. Quer dizer, pra psicanálise são coisas às quais você resiste porque são dolorosas ou porque são difíceis.</p>
<p><strong>Escrever é, inclusive, um método da psicanálise, né? </strong></p>
<p>Sim, a escrita pode ser extremamente elaborativa, principalmente quando ela é ficcional. Mas na não ficção você também está se expondo, você também está falando dos teus dilemas, das suas questões, dos teus medos, das suas fantasias, aquilo que está um tanto colocado ali.</p>
<p>Tanto que eu vou mostrar no livro a posição de Freud, lá em 1920, como era atravessada pelo maternalismo, como era atravessada pelas fantasias do Freud em relação à mulher e à mãe. Então, a gente está atravessado, na nossa época, com as nossas fantasias e as nossas crenças. Todo esse estudo me fez rever muito a minha posição como mãe, como mulher. É uma coisa que você procura elaborar algo, mas aquilo se transforma também para você.</p>
<p><strong>Você também traz no livro a expressão “padrão ouro de maternidade”, de cuidado. Como isso impacta na imagem que a mulher tem quando pensa em um ideal de mãe? Às vezes essa ideia esbarra em algo completamente inacessível… </strong></p>
<p>É, isso eu trago como um tema muito sério no livro, porque a gente fala assim: “ai, a maternidade é tão linda, é sagrada”. Sim, mas depende de qual. A maternidade branca, de classe média alta, de mulheres casadas, cisgênero, heterossexuais, com seu maridinho, babá, genitoras &#8211; que gestaram e pariram &#8211; é a maternidade padrão ouro.</p>
<p>Conforme você vai tendo recortes de classe, de gênero, de raça, aí entram também as mulheres lésbicas, as mães solo, as adotantes, as mulheres negras, as mulheres periféricas, pobres, as mulheres trans, os homens trans, você já vai tendo uma queda nesse padrão ouro, ou seja, um olhar de preconceito, de racismo.</p>
<p>A gente tem um número grande de mulheres que são destituídas do seu papel de mães, porque elas não chegam nesse padrão ouro. Mulheres que vivem numa situação de pobreza e que, ao invés do estado chegar e ajudá-las, ele tira essas crianças das mães, dizendo que elas estão vivendo uma situação de pobreza, mas estão mesmo, né?</p>
<p>Tem muito preconceito com essas mães que não estão nesse nível. Isso é muito importante pra gente pensar, por exemplo, no poder Judiciário, na escola. Como a gente escolhe as mães que devem ser ouvidas, aquelas que devem ser destituídas? Se a gente chama o pai ou não chama? O que a gente pensa da maternidade vai fazer toda a diferença em relação à justiça, educação, política públicas.</p>
<p><strong>Você também fala sobre o <em>burnout</em>, que é essa carga mental, de trabalho, da maternalidade, e tudo o que envolve essa nova mulher. Você acha que o mundo não soube lidar com o avanço da mulher, seja no mercado de trabalho, seja nas suas relações sociais, afetivas ou não, amorosas ou não?  </strong></p>
<p>Olha, decididamente não soube. Porque, na verdade, as mudanças que vieram com o feminismo, essa revolução sem tiros &#8211; porque, na verdade, quem morre no feminismo são as mulheres &#8211; essa revolução social do feminismo empurrou os homens para uma nova realidade, de uma forma que os homens precisaram se virar e entender qual a paternidade deles.</p>
<p>Na medida que elas vão para o mercado de trabalho em uma outra posição &#8211; porque as mulheres sempre trabalharam, mas a partir dos anos 1960, 1970, elas não querem aquele trabalho invisível, do dinheiro para o alfinete, aquele trabalho que o marido tinha vergonha que a mulher trabalhava, elas querem ocupar todos os postos de trabalho, aqueles que eram reconhecidos como masculinos.</p>
<p>Quando elas assumem essa posição, elas vão reivindicando que o homem entre dentro do trabalho de cuidados. A gente vai ter, por exemplo, uma coisa que era impensável, que era a guarda compartilhada se tornando uma coisa absolutamente banal. E isso vai obrigando o homem a responder com uma nova paternidade, porque ele tem que cuidar, e isso vai criando uma nova masculinidade.</p>
<p>Então, você veja, é todo um esforço de batalhar para ganhar espaço, para conquistar direitos que, de fato, a sociedade não está preparada. A gente vai ter que trabalhar muito ainda para conquistar isso.</p>
<p>EMBED</p>
<p><strong>Ainda sobre o <em>burnout</em>, você faz atendimentos clínicos há 30 anos. Como tem sido o avanço dos diagnósticos no teu consultório? </strong></p>
<div></div>
<p>O <em>burnout</em> é um termo mais midiático, a gente não usa essa expressão na psicanálise, a gente vai falar de sofrimento e de sintomas. O que eu tenho observado é que as mulheres são as principais pacientes dos consultórios, as que mais procuram. O que está mudando é que elas sempre sofreram, sempre tiveram sintomas, sempre ficaram sobrecarregadas, só que agora elas estão começando a questionar esse modelo, porque elas sempre colocaram como: “eu devo estar fazendo alguma coisa errada, por isso eu estou doente. Devia correr mais atrás, fazer mais, ser que nem a minha mãe foi, ser que nem a minha avó foi, conseguir conciliar 10 coisas ao mesmo tempo”.</p>
<p>Agora, elas começam a desconfiar de que talvez não seja uma coisa a qual elas devem se adaptar, mas uma coisa que elas devem reivindicar uma mudança, porque você pode dizer: “Ah, eu estou exausta com meu trabalho, eu vou tomar um remédio para trabalhar melhor”. Não, talvez você tenha que repensar se o teu trabalho é um trabalho que leva em consideração a saúde mental dos funcionários.</p>
<p>Então, o que está acontecendo é que as mulheres estão começando a entender que são elas que estão oprimidas por uma situação, e não elas que têm que correr atrás de corresponder a isso. Isso traz muito ressentimento, porque é uma hora que cai a ficha: “estou sendo explorada, estou bancando a trouxa, o outro não está cumprindo a parte dele e eu estou sendo sobrecarregada”. Vem muito ressentimento, muita raiva, muito sintoma, muito sofrimento&#8230;</p>
<p><strong>&#8220;O que eu perdi para chegar até esse lugar, será que, de fato, vale a pena?&#8221;</strong></p>
<p>&#8220;Precisaria ser assim? Isso é a maternidade ou é a maternidade hoje que é injusta?&#8221; É a grande história que está se falando agora, que é mulher fala assim: “Eu quero ser mãe, mas eu quero ser pai do meu filho, eu quero ter uma vida, eu não quero abrir mão”. Para ser mãe, as mulheres sempre acharam que tinham que abrir mão de uma vida. E hoje elas falam assim: “nossa, eu fui enganada, não era para ser assim não”.</p>
<p><strong>A taxa de natalidade tem caído cada vez mais. Há lugares no mundo que tem feito programas, inclusive, para estimular a natalidade, porque já existe um desequilíbrio nessa pirâmide. Isso é só fruto desse feminismo novo, dessa revolução sem armas, ou é uma consciência que os pais têm de uma nova realidade do mundo”?</strong></p>
<p>Eu adoraria dizer que foi uma sacada, uma mudança de mentalidade, uma questão moral. Não é, vai esbarrar em uma questão econômica. No livro eu também falo um pouco desses momentos de virada, onde a questão econômica se sobrepôs e que levaram, inclusive, a que as mulheres fossem obrigadas a cuidarem sozinhas dos filhos.</p>
<p>E hoje o que a gente é o contrário. É uma espécie de greve de útero, no qual as mulheres vão percebendo que é impossível conciliar, se for pensar que a gente tem no Brasil 51% dos lares brasileiros chefiados por mulheres. Quer dizer, elas estão chefiando o lar, fazendo economia de cuidados, não tem mais aquela divisão de o homem prover financeiramente a mulher e ela cuida da casa que, na verdade, nunca existiu pra valer mesmo, é mais uma ideia do que um fato, pelo menos para uma camada maior da população.</p>
<p>Então, nesse momento, as mulheres começam a perceber que talvez não dê. Tem as que não querem ter filhos, é ótimo, tem aquelas que até gostariam e não tem, tem aquelas que gostariam de ter muitos e tem um ou dois no máximo, e você vai tendo um déficit demográfico, ou seja, nascem menos pessoas do que o necessário para repor a população mais velha.</p>
<p>Isso vai se tornando um problema econômico e político importantíssimo e que, interessante, a solução são aquelas que a gente já vem pleiteando desde sempre: licença parental e não só materna; garantia de volta do emprego depois da licença maternidade, com estabilidade; ganhar mais e não ganhar menos &#8211; porque as mulheres ganham menos porque elas engravidam, elas deveriam ganhar mais.</p>
<p><strong>Às vezes não são contratadas porque podem engravidar ou porque estão grávidas&#8230; </strong></p>
<p>Exatamente, ou já ganham menos porque vão sair na licença maternidade, quer dizer, o inverso. Então, começam a aparecer uma série de subsídios financeiros, inclusive, ou seja, a gente está fazendo um trabalho de graça, invisibilizado. E a tentativa é cooptar essas mulheres através desses apoios, mas não está funcionando.</p>
<p><strong>Você falou sobre saúde mental, e o 10 de outubro é o Dia Internacional da Saúde Mental. Para além de toda essa carga das mulheres, que a gente tem falado durante o programa, a gente vive também uma questão geral de degradação da saúde mental da população. Que momento é esse?</strong></p>
<p>A gente vive um momento dentro da lógica capitalista, que é individualista, cada um por si e só interessam os bens materiais, então, o sujeito vai sendo apagado e isso tem um preço muito grande. Mas a partir do neoliberalismo isso se potencializa de uma forma tão gigantesca que, com a ideia de estado mínimo, do cada um que se vire, cada um que cuide de si, o que que acontece é que a gente vai vendo as populações, aquilo que o estado poderia tentar equalizar nas diferenças, no abismo social, isso só aumenta.</p>
<p>Hoje, se a gente tivesse todos os “psis”: psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, atendendo a população, se a população tivesse acesso a todos, ainda assim não haveria serviço suficiente para a demanda que existe, é interessante isso. Significa que a gente está vivendo uma situação tão insalubre na realidade de vulnerabilização dos serviços, do enxugamento do estado, que a gente precisa começar a pensar numa frase do Tom Zé, que me ocorreu agora: “ao persistirem os médicos, consulte o sintoma”.</p>
<p>Ou seja, se a gente está precisando de tanto médico, de tanto remédio, é que talvez o estilo de vida da gente tenha que ser repensado. Porque senão, a gente entra numa lógica que é assim: você não está bem no teu trabalho, então vou te dar um remedinho para você ficar bem energizado, para não ter que ir lá no teu trabalho e reivindicar que o teu trabalho é uma porcaria.</p>
<p>Ao invés de fazer uma reivindicação social de mudanças, a gente vai se medicando e vai se tratando para tentar se adaptar. Então, a saúde mental também tem que ser pensada em termos de: “será que eu tenho que mudar o estilo de vida, ao invés de achar que tudo tem que acabar em tratamento”?.</p>
<p><strong>E parte da população tem se automedicado, ou está altamente medicada por dopantes e remédios que vão te colocar numa zona de conforto. Que reflexos isso tem para o nosso futuro? </strong></p>
<p>Então, a gente sabe de vários escândalos da indústria farmacêutica. Hoje, nos Estados Unidos, por exemplo, morrem milhares de pessoas por dia por overdose de remédios que foram receitados, que são incentivados pela indústria farmacêutica para venda, e médicos que ganham prêmios, tem documentários, inclusive, várias reportagens denunciando isso, sobre o uso excessivo da medicação.</p>
<p>Isso entra numa lógica liberal, na qual você tem que estar bem. Se você não está bem é porque você deixou de fazer alguma coisa: ioga, pão, meditação, correr cinco horas da manhã, você está dormindo demais ao invés de acordar cedo e fazer o que você tem que fazer. Então, tem essa culpabilização do indivíduo, não se pensa mais no social.</p>
<p>E a medicação vem para preencher isso: “você não está bem, se medica”. A indústria farmacêutica entra com tudo, sem um pingo de ética. E a gente vai vendo esse adoecimento se propagar. A mentalidade é que você não pode sofrer, esse é o grande problema. A gente vai criando toda uma geração que acha que o sofrimento tem que ser evitado, ele não faz parte da vida. Isso é a &#8216;happycracia&#8217;, que os sociólogos estão discutindo, e que leva a gente à depressão, porque ou você encara que a vida tem sofrimento e vive, ou você finge que não e deprime.</p>
<p><strong>Você escreveu recentemente sobre o Setembro Amarelo, e falou sobre como os homens têm lidado com essa masculinidade. Onde é que estão os pais homens nessa nova maternidade? </strong></p>
<p>É assim, não é muito homogênea essa categoria, porque a hegemonia dos pais são ainda de homens que acham que o filho é da mãe, então quando ele se divorcia da mulher, ele se divorcia dos filhos, e é capaz de ter uma outra família, com outros filhos e se divorciar, e vai se divorciar de novo. Quer dizer, ele acha que o filho é da mãe, que ela que sabe cuidar, que não tem nada a ver com isso. E a gente tem 5 milhões de brasileiros sem o nome do pai no registro, esse é o hegemônico.</p>
<p>Mas você já tem homens que estão mostrando que existe a possibilidade de uma outra paternidade masculina, porque eu brinco que antigamente, o homem que trocava a fralda, a fralda parecia que era kriptonita, ele iria perder toda a masculinidade, por conta de uma ideia desvirilizante, de que isso não é trabalho de um homem.</p>
<p>Hoje isso já muda, você vai ter Rodrigo Hilbert, você vai ter Lázaro Ramos, você vai ter expoentes, pessoas nas novelas que falam que dá pra ser pai, que é bacana. Dá pra ser pai e masculino, ser pai de um certo jeito, cuidando tanto quanto ou mais do que uma mulher. Então, a gente vai mudando a mentalidade, mas ainda não é hegemônico.</p>
<p>O que a gente tem de vantajoso é que é uma geração que já tem modelos masculinos atraentes, já tem representatividade deste pai, que é tão bom cuidador quanto uma mãe, que não perde para uma mãe e que para isso não precisa se tornar uma mãe, nem a mãe precisa se tornar um pai, basta ser um cuidador e uma certa qualidade. O que o livro também coloca é que o cuidar não tem gênero. A gente chama de materno e paterno, mas na verdade, são cuidados e eles têm que ter uma certa qualidade que não está no gênero. Está na aprendizagem de cuidar do outro.</p>
<p><strong>Você comentou também recentemente sobre como faltam recursos para os homens reconhecerem, nomearem e compartilharem afetos. Nos últimos quatro anos, a gente viveu um período em que uma falsa virilidade, aquela do imbroxável, foi muito difundida no Brasil, principalmente sob a presidência de Jair Bolsonaro. Há um caminho de volta, ou a gente vai ter que lidar com isso para sempre?</strong></p>
<p>Então, o Brasil é um país conservador, a gente tem as nossas bolhas nos quais a gente acha que todo mundo pensa como a gente, mas a gente sabe que os estudos mostram que o brasileiro médio é conservador. O que acontece é que, o que a gente entende por homem e mulher, são discursos, são narrativas que vão mudando, tem as que são mais justas, tem as que são mais violentas, tem as que são mais injustas.</p>
<p>Está entrando fortemente um novo modelo de homem, que é um homem que pensa a relação de uma forma mais equânime, mas os discursos convivem e, às vezes, se chocam violentamente. Agora, o que a gente percebe é que os homens são criados, também hegemonicamente, para serem cuidados e para a ação. E as mulheres são criadas para cuidar e para a reflexão.</p>
<p>A mulher, geralmente, é aquela que intermedia as relações familiares: “ah, vai conversar com seu pai, ele está chateado que você disse aquilo”. “Ah, vai conversar com seu irmão…”. Ela fica sempre como um cão pastor tentando mediar, porque ela tem esse <em>know-how</em> mesmo, esse conhecimento, ela tem esse repertório, de pensar o que ela está sentindo e de comunicar, de nomear e de compartilhar.</p>
<p>A gente tem que transmitir isso para os meninos desde muito pequenos. O menino, quando vem chorando, os pais falam: “ah, vai brincar que passa”. A menina vem chorando e alguém diz “que foi, o que aconteceu com você?”. Vai criando um repertório afetivo que o menino não tem.</p>
<p>Quando a vida vai seguindo, você vai vendo que isso repercute, por exemplo, como no texto que você está citando, que eu estou falando do suicídio dos homens, porque na hora que o homem se vê em uma situação difícil &#8211; e todos nós enfrentamos situações difíceis em uma certa altura da vida, ou às vezes, a vida toda &#8211; ele não tem muita capacidade, repertório mesmo para pensar o que ele está sentindo, para nomear, para contar para alguém, os amigos falam sobre tudo, menos sobre a vida íntima. Tem muita dificuldade de criar intimidade nas relações.</p>
<p>As mulheres estão mais lá na frente, a gente vai ter que também trabalhar muito isso com os homens para eles poderem estabelecer relações mais profundas entre si, com as mulheres, com os filhos e, quem sabe pegar menos em armas e partir para o diálogo.</p>
<p><strong>Queria aproveitar que você falou sobre a criação dos filhos e lembrar de outro livro teu, o <em>Criar filhos no século 21</em>. Há um desafio cada vez maior em um mundo cada vez mais conectado, e até individualista, no ato de criar filhos. Como isso foi se modificando ao longo do tempo? </strong></p>
<p>Olha, cada geração tem ônus e bônus nesse papel de cuidar de filhos, não tem a geração perfeita, todas têm as suas encrencas. E depois, o mais engraçado é que a gente se esmera em fazer de um certo jeito e os nossos filhos fazem questão de fazer de outro. Nós somos uma sociedade que está sempre em transformação, diferentemente das sociedades tradicionais, por exemplo.</p>
<p>A gente vive hoje um momento de mais liberdade na relação com os filhos, uma relação mais horizontal, isso tem seus custos. Mas a gente também vive um momento de mais intimidade com os filhos. Hoje, diferentemente dos pais dos anos 1950, que o pai colocava no mundo, educava e segue &#8211; que também é legal porque a criança se emancipava rápido.</p>
<p>Hoje, os pais querem saber como os filhos estão se sentindo, o que estão vivendo na escola, são mais presentes na vida da criança, compartilham mais a vida da criança. Então, a gente vive um momento com alguns paradoxos. Eu acho que o que é mais marcante nesta geração da qual a gente faz parte é a entrada da internet.</p>
<p>A entrada da internet deixou os pais muito desorganizados, com mil informações que eles não sabem conciliar, muito desautorizados: “ah, será que o certo é isso, ou será que o certo é aquilo?”. Ao invés de se consultar um pouco mais. Sempre [utilizando como parâmetro] o que os outros estão fazendo.</p>
<p>E também, as crianças tiveram, na relação com a internet, o que a gente chama de ego auxiliar. Elas vão se reportar à internet mais do que aos adultos. A internet não é só uma telinha, é lá que elas perguntam tudo sobre sexo, sobre a vida, sobre amor, o primeiro encontro, como é que beija, tudo.</p>
<p>Então, tem uma cisão aí que vem com a internet e que a gente vai ter que regular. Eu diria que é uma geração um pouco boi de piranha, a gente pegou esse aparelho e está se batendo com ele e vai ter que trabalhar bastante a regulação e aprender a lidar com essa situação. Para resumir, o livro que você cita, ele não chama “Como criar filhos”. Não, é só “Criar filhos”, porque como não tem [um caminho único] a gente vai ter que fazer uma reflexão para descobrir, nesse mundo caótico que a gente vive hoje, o que é valor para nós e o que não é, e como a gente lida com isso.</p>
<p>Fonte: Brasil de Fato.</p>
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		<title>Entrevista: “A defesa diante da discriminação de gênero está no cerne da luta dos trabalhadores”</title>
		<link>https://bancarios.com.br/entrevista-a-defesa-diante-da-discriminacao-de-genero-esta-no-cerne-da-luta-dos-trabalhadores/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Mar 2023 14:46:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta edição, conversamos com a diretora de Assuntos de Gênero do SEEB/VCR, Camille Santos, sobre a luta por oportunidades iguais e contra a violência de gênero. Porque as mulheres devem participar de entidades que lutam pela defesa da mulher, ou seja, se organizando no combate à discriminação? A organização coletiva em torno de um bem &#8230;</p>
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<p><strong>Nesta edição, conversamos com a diretora de Assuntos de Gênero do SEEB/VCR, Camille Santos, sobre a luta por oportunidades iguais e contra a violência de gênero.</strong></p>
<p><strong>Porque as mulheres devem participar de entidades que lutam pela defesa da mulher, ou seja, se organizando no combate à discriminação?</strong> A organização coletiva em torno de um bem comum gera um impacto social maior, além de uma segurança de que a mulher não está sozinha em seu processo de enfrentamento, seja de uma situação específica, seja ante o machismo estrutural.</p>
<p><strong>Qual é a importância do Sindicato ter uma diretoria de Gênero?</strong> O sindicato, enquanto expressão da categoria, tem o dever de primar pelos direitos básicos de seus filiados e filiadas. A defesa diante da discriminação de gênero está no cerne da luta da trabalhadoras e trabalhadores por igualdade e condições justas de trabalho, e o sindicato reflete essa necessidade, tanto com a pasta de gênero, quanto com o acolhimento de filiadas em suas demandas individuais, colaborando com as entidades da sociedade civil para combater as situações de violência e desigualdade.</p>
<p><strong>Qual é a importância de fazer as denúncias?</strong> A colega que sofre uma situação de discriminação e/ou violência precisa sentir que não está sozinha em sua realidade. Que esse sentimento, essa dor, encontre eco e empatia em outra mulher que, antes dela, passou por situação similar e denunciou e foi acolhida. Denunciar é um ato de coragem por si e pelas demais mulheres.</p>
<p>As opiniões expressas não refletem, necessariamente, o posicionamento da diretoria do SEEB/VCR.</p>
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		<title>Entrevista: Educação cidadã é primordial para enfrentar racismo, diz Kabengele Munanga</title>
		<link>https://bancarios.com.br/entrevista-educacao-cidada-e-primordial-para-enfrentar-racismo-diz-kabengele-munanga/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Feb 2023 12:04:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O combate ao racismo estrutural depende de uma educação cidadã antirracista, sugere o antropólogo congolês-brasileiro Kabengele Munanga. Ele afirma que não há uma receita pronta para lutar contra o preconceito racial, mas há três caminhos possíveis: as leis, a educação antirracista e as ações afirmativas. &#8220;As leis, embora existam, só atingem práticas racistas observáveis. Os preconceitos que são introjetados &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="aligncenter wp-image-56693 " src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2023/02/167646773563ecde170a73a_1676467735_3x2_lg.jpg" alt="" width="768" height="542" /></p>
<p>O combate ao racismo estrutural depende de uma educação cidadã antirracista, sugere o antropólogo congolês-brasileiro Kabengele Munanga. Ele afirma que não há uma receita pronta para lutar contra o preconceito racial, mas há três caminhos possíveis: as leis, a educação antirracista e as ações afirmativas.</p>
<p>&#8220;As leis, embora existam, só atingem práticas racistas observáveis. Os preconceitos que são introjetados pela educação e estão na cabeça das pessoas, não. Só a educação pode atingir esse terreno&#8221;, afirma.</p>
<p>Munanga é antropólogo e professor aposentado da USP. Ele nasceu em Bakwa Kalonji, no antigo Zaire, atualmente República Democrática do Congo, em 1940. Está no Brasil desde 1975.</p>
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<div id="banner-300x250-area-materia" class="c-advertising__banner-area">Ao longo desses anos, ele se debruçou nos estudos sobre antropologia da África e da população afro-brasileira e nas questões raciais. O intelectual contribuiu de forma significativa na discussão sobre raça e para derrubar o mito da democracia racial.</div>
</div>
<div></div>
<div>Foi no país do continente africano que ele iniciou seus estudos na antropologia, ao cursar a graduação na Universidade Oficial do Congo (1964-1969). Depois, ganhou uma bolsa de estudos para fazer o doutorado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.</div>
<div>
<p>Em 1971, o antropólogo retornou ao país de origem para fazer um trabalho de campo, mas foi impedido pela ditadura de Mobutu Sese Seko (1930-1997).</p>
<p>A convite do então diretor do Centro de Estudos Africanos da USP, ele veio ao Brasil, em 1975, e conseguiu, assim, concluir sua pesquisa.</p>
<p>O antropólogo ingressou como docente na USP em 1980, tornando-se o primeiro professor negro da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Na universidade, lecionou até 2012, quando se aposentou, após 32 anos na instituição.</p>
<p>O livro &#8220;Negritudes: Diálogos com o Pensamento de Kabengele Munanga&#8221; (Editora Autêntica), lançado em novembro, reúne textos em homenagem ao legado intelectual do professor.</p>
<p>A publicação aborda a sua longa trajetória no engajamento sociopolítico em defesa dos direitos humanos, por sua produção crítica de combate ao racismo e promoção da equidade étnico-racial.</p>
<p>Em conversa com a <strong>Folha</strong>, o professor falou sobre mito da democracia racial, racismo estrutural, ações afirmativas e a lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.</p>
<div class="newstext-star newstext-star--svg"><label class="u-visually-hidden" aria-hidden="true"></label></div>
<p><strong>Por que o senhor define que no Brasil o racismo é um crime perfeito? </strong>É um crime perfeito porque o mito da democracia racial, por muito tempo, impediu que se falasse da existência do racismo no país.</p>
<p>Na época em que eu cheguei aqui, dizer que o Brasil era um país racista era como um crime. Eu não tive problema para fazer minhas pesquisas, porque meu tema era a África e nada tinha a ver com a questão do negro no país.</p>
<p>Mas tive um colega que veio da Índia para São Paulo com um projeto de estudo sobre a classe média negra em São Paulo. Um dia, ele declarou em uma entrevista que seu projeto era estudar aqui o racismo e a questão do negro no Brasil. Ele foi convocado pelo Dops [Departamento de Ordem Política e Social], passou duas noites lá e, no dia seguinte, não quis mais tocar no assunto. O tema do trabalho dele mudou para a existência das castas na Índia.</p>
<p>Isso é para mostrar o quanto era difícil [falar sobre racismo]. Nesse sentido, eu e outros colegas, como Hélio Santos, achamos que o racismo é um crime perfeito. É como um carrasco, e o carrasco mata sempre duas vezes. Mata fisicamente os negros e mata a consciência de todos os brasileiros.</p>
<p>Mas essa frase não é minha, vem de um prêmio Nobel judeu, Elie Wiesel. Foi ele que disse: o carrasco sempre mata duas vezes, a segunda é pelo silêncio.</p>
<p><strong>Falando em silêncio, como lidar com essa faceta do racismo? </strong>Olha, esse silêncio é o mito da democracia racial e, como diz a própria palavra, é um mito. Os políticos e ideólogos usaram essa ideia justamente para escamotear os problemas da sociedade. Para dizer que o Brasil não é racista, porque é uma sociedade mestiça.</p>
<p>Essa ideia foi desmistificada a partir da década de 1930 pela Frente Negra Brasileira. Eles acreditavam que o problema era simplesmente de educação, mas, aos poucos, os negros que tiveram acesso a ela encontraram barreiras no mercado de trabalho. Eles chegaram à conclusão de que isso aqui não era democracia.</p>
<p>Depois, com as pesquisas da academia e as denúncias e protestos do movimento negro, a sociedade brasileira começou a se conscientizar.</p>
<p>Os negros se deram conta de que a educação era muito importante, mas depois chegaram à conclusão de que não bastava, precisava também de uma educação cidadã, que conscientizasse os brasileiros de que o Brasil é um país do pluralismo cultural, do encontro das culturas e civilizações.</p>
<p><strong>O sr. afirma que &#8220;o mito da democracia racial, apesar de já ter sido destruído política e cientificamente, tem uma forma inercial difícil de desmantelar&#8221;. Que forma é essa? </strong>Sabe o que é inércia? A inércia é um movimento que ainda deixa traços. Ainda há pessoas, apesar do crescimento da consciência, que acreditam em ideologias antigas, como a de que não há racismo no Brasil.</p>
<p>O mito foi desconstruído pelo movimento negro, pelos intelectuais, mas a força desse mito ainda existe na estrutura da sociedade e no inconsciente coletivo. Isso que chamo de inércia.</p>
<p><strong>O que podemos fazer para combater essa forma inercial do racismo? </strong>Hoje, no Brasil, se fala em racismo estrutural depois do livro do Silvio Almeida e do Dennis de Oliveira, que escreveram obras com esse título. Ninguém utiliza a palavra racismo sem adjetivá-la.</p>
<p>O racismo tem uma forma difícil de destruir, aquela alojada na estrutura da sociedade que se manifesta nas instituições.</p>
<p>Esse racismo é o maior problema. Nós não temos ferramentas, receita pronta, para lutar contra ele. Se tivéssemos, não existiria mais racismo no mundo.</p>
<p>Como modificar a estrutura de uma sociedade capitalista? Não é pelo discurso. Ou se faz uma revolução e constrói outro modelo de sociedade, mas isso é uma utopia —com a qual estamos sonhando.</p>
<p>Ou nós temos três caminhos, que eu chamo de clássicos. O primeiro é pela lei. A primeira foi a Lei Afonso Arinos, de 1951. Depois, em 1988, na nova Constituição, aparece uma nova que diz que qualquer prática de racismo é crime imprescritível, inafiançável e sujeita a reclusão. Agora tem uma nova lei que o presidente Lula acabou de assinar. Ela considera a injúria racial como um crime sujeito a reclusão.</p>
<p>Mas as leis, embora existam, só atingem práticas racistas observáveis. Os preconceitos que são introjetados pela educação e estão na cabeça das pessoas elas não atingem. Só a educação pode transformar esses nuances que o racismo criou. Nesse sentido, a educação é um instrumento de luta contra o preconceito.</p>
<p>O terceiro caminho são as políticas de ações afirmativas, de inclusão, porque não basta dizer que perante a lei somos iguais, as pessoas vão continuar a discriminar.</p>
<p><strong>Por que o racismo é sempre do outro? Qual a dificuldade em assumir as próprias manifestações racistas? </strong>Essa dificuldade tem a ver com a maneira como o racismo entrou no tecido social através da educação. As pessoas hoje têm dificuldade para dizerem que somos iguais.</p>
<p>Já ouviu falar da branquitude? Esse conceito nasceu da tese da Cida Bento. Ela foi a primeira pessoa a trabalhar com a consciência de branquitude, para mostrar que os brancos têm consciência das suas vantagens, mas não as criticam. Quer dizer que eles aceitam que são superiores para ter essas vantagens, mas ninguém reclama. Isso é racismo. Quando chega ao nível de naturalização não se vê mais injustiça.</p>
<p><strong>A lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica, completou 20 anos. Educadores e especialistas ouvidos pela Folha afirmaram que falta formação dos professores e material didático sobre o assunto. Qual a avaliação do sr. sobre a lei? Por que as escolas estão com dificuldade de implementá-la? </strong>Olha, quando essa lei foi promulgada, fui uma das primeiras pessoas a falar dessa questão. Eu estava tentando mostrar que os educadores, os brancos e os negros, receberam uma educação racista. Muitos não sabem nem o que é realmente o racismo.</p>
<p>Como é que um educador que não sabe como o racismo à brasileira se expressa vai trabalhar com isso na sala de aula? A primeira coisa que fiz depois da lei 10.639 foram conferências de conscientização e sensibilização dos educadores em alguns municípios, para eles entenderem a importância da lei e que tinham uma grande responsabilidade.</p>
<p>Além dessas conferências, precisamos formá-los, porque eles não sabem como lidar com esse fenômeno. Tem também que produzir livros, materiais didáticos, porque os anteriores são repletos de preconceitos contra negros e povos indígenas.</p>
<p>Além do mais, em cada município teria que ter um monitoramento para saber se a lei está funcionando. Será que esse monitoramento existe? Eu tenho impressão de que a lei veio de uma maneira caótica.</p>
<p><strong>Estava prevista para o ano passado a revisão da lei de cotas, mas foi adiada. Como avalia a situação das cotas? Há chances de perdermos essa política pública? </strong>As cotas são para reduzir um abismo de 400 anos [de escravidão]. Não se reduz um abismo de 400 anos em 20 ou 10 anos. Apesar da qualidade da política, isso vai demorar gerações. Não sei por que definiram 10 anos. Olha o exemplo da Índia. As cotas estão lá há 72 anos, porque eles sabem que é um longo processo.</p>
<p>As políticas de cotas têm de continuar, senão vai ser uma perda muito grande, um regresso para os negros. Quem vai perder vai ser a sociedade brasileira.</p>
<h3 id="raio-x" class="c-news__subtitle">RAIO-X | <strong>KABENGELE MUNANGA, 82</strong></h3>
<p>Doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo. É professor emérito do departamento de antropologia da FFLCH-USP. É autor de mais de 150 publicações entre livros, capítulos de livros e artigos científicos na área da antropologia da África e da população negra no Brasil, entre os quais &#8220;Os Basanga de Shaba&#8221; (1986); &#8220;Negritude: Usos e Sentidos&#8221; (1988); &#8220;A Revolta dos Colonizados&#8221; (1995); &#8220;Estratégias e Políticas de Combate à Discriminação Racial&#8221; (1996). É professor honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É também pesquisador emérito do CNPq, entre outras dezenas de prêmios e títulos.</p>
<p>Publicado pela Folha.</p>
</div>
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		<title>Depois do golpe de 2016 houve um processo de desmonte da Petrobrás, afirma Norton Cardoso, conselheiro da Petros</title>
		<link>https://bancarios.com.br/depois-do-golpe-de-2016-houve-um-processo-de-desmonte-da-petrobras-afirma-norton-cardoso-conselheiro-da-petros/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2023 12:21:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A devolução do bloco de Saturno pela Shell realça a importância da Petrobras para a exploração das riquezas ocultas no pré sal e para o desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil. Nos governos do golpista Michel Temer e do fascista Jair Bolsonaro a gigante brasileira do petróleo priorizou os interesses dos grandes acionistas privados e &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="size-medium wp-image-56511 alignleft" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Norton-Cardoso-de-Almeida-conselheiro-Petros-e-CF-FUP2-300x175.jpg" alt="" width="300" height="175" /></p>
<p>A devolução do bloco de Saturno pela Shell realça a importância da Petrobras para a exploração das riquezas ocultas no pré sal e para o desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil. Nos governos do golpista Michel Temer e do fascista Jair Bolsonaro a gigante brasileira do petróleo priorizou os interesses dos grandes acionistas privados e foi vítima de um processo de desmonte e privatização fatiada. Confira abaixo a entrevista concedida pelo petroleiro Norton Cardoso de Almeida ao Portal da CTB sobre o tema. Norton é conselheiro deliberativo da Petros e também membro do Conselho Fiscal da Federação Única dos Petroleiros (FUP):</p>
<p><strong>Como você avalia o fato da Shell ter devolvido o bloco de Saturno, localizado no pré-sal da bacia de Santos?</strong></p>
<p>Na verdade isso é um dejavu para quem conhece a história do pré sal e sabe que a própria Shell testou vários poços, antes da Petrobras. Não encontrou nada. A Petrobras foi lá e, com a tecnologia que a empresa desenvolveu, fez os testes e extraiu óleo de alta qualidade e em grande quantidade.<br />
Ainda com a utilização da ciência que a Petrobras detém ficou constatado que esse sucesso não foi pontual, mas revelou a descoberta da maior jazida de petróleo no planeta dos últimos 50 anos.<br />
Portanto, isso mostra claramente que a iniciativa privada é eficiente para se apropriar de lucro fácil e tem aversão a risco e pouca disposição em investir em pesquisa.</p>
<p><strong>Como ficou a Petrobras após as gestões neoliberais que orientaram as decisões da empresa depois do golpe de Estado de 2016, ou seja, durante os governos Temer e Bolsonaro?</strong></p>
<p>Houve um processo de desmonte da empresa, vulnerabilização de informações sensíveis, de um lado por ação dos governos, o primeiro ilegítimo, o segundo entreguista, antipatriota e refratário à ciência, inclusive no que diz respeito à estratégia energética. De outro, somaram na mesma direção as ações nocivas de agentes da Lava-Jato, que obrigaram a empresa a compartilhar dados sensíveis com governos estrangeiros, profundamente comprometidos com a ganância das petroleiras privadas internacionais e importadores de combustíveis.</p>
<p>Neste contexto houve venda de vários ativos, hoje há situação de ex-gestores que viabilizaram essas vendas com cargos nas empresas compradoras. Alienação de dutos e da BR tornaram a Petrobras refém da logística de terceiros e que antes era dela.</p>
<p>Houve redução de quadros de funcionários, com fuga de ciência acumulada, deterioração do ambiente de trabalho, impacto nas políticas de segurança e, por óbvio, o apontamento de uma privatização, no mínimo inconveniente, inconsequente e irresponsável ou, no limite, criminosa.</p>
<p><strong>Quais as consequências da política de priorizar a distribuição dos lucros aos acionistas em detrimento dos investimentos e de iniciativas sociais e de apoio à cultura?</strong></p>
<p>Primeiro fica comprometido o futuro da empresa, a Petrobras depende de pesquisa para sobreviver, essa situação da Shell corrobora isso, o conhecimento é fundamental no sucesso do negócio primeiro da Petrobras, que é uma empresa de energia, criada para isso e para atender os interesses do povo brasileiro. Ora, é inconcebível tratar a empresa como um empreendimento qualquer ou apenas do ponto de vista contábil. Quem investe na empresa sabe que ela tem essa finalidade inicial, portanto, não há que se reclamar. Mais da metade da produção nacional de petróleo hoje vem do pré sal, que surgiu de um endividamento, muito criticado na época por esses contabilistas fundamentalistas, mas que se não houvesse a empresa estaria, aí sim, insolvente.</p>
<p>No caso dos investimentos sociais e em cultura, vale repetir, a Petrobras existe para servir ao povo brasileiro e todos os investidores sabem disso… Nesta toada, apoios a iniciativas que atacam o drama social nacional é a retribuição mínima que se deve ter ao verdadeiro dono da empresa. Quanto a investimentos culturais, é muito claro a reverberação destes recursos no desenvolvimento da cultura nacional e na geração de emprego e renda, basta ver os países desenvolvidos, quanto eles investem neste setor, os americanos, ingleses, franceses, espanhóis e até os argentinos, donos de dois Oscars, que não temos nenhum… é assustador a lógica de se ter artistas de ponta, como o Brasil felizmente tem, na figura de vilões por necessidade de financiamento da área.</p>
<p><strong>O que deve ser feito para resgatar o caráter público da empresa?</strong></p>
<p>Retomar a verticalização da empresa, desde o poço até o posto, quiçá até o poste, agregando o setor elétrico. Há uma necessidade imperiosa de entender o conceito de soberania energética e, evidentemente buscando critérios de eficiência e economicidade, prover todos os brasileiros, seja onde for, de condições de vida digna. Isso passa por investimentos em novas unidades de produção de petróleo, refinarias, logística, pesquisa em transição energética, valorização do trabalhador, responsabilidade social, ambiental e por fim resgatar o sentimento de orgulho nacional legítimo, real e honesto.</p>
<p>Fonte: CTB.</p>
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		<title>“Bolsonaro mata o povo de fome e enche as burras dos bancos”, diz presidente da CTB</title>
		<link>https://bancarios.com.br/bolsonaro-mata-o-povo-de-fome-e-enche-as-burras-dos-bancos-diz-presidente-da-ctb/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 12:43:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em entrevista ao jornal Hora do Povo, Adilson Araújo, presidente da CTB, falou a respeito do que pensa e o que sente sobre o momento que vive o país. Expôs ideias como: “A próxima eleição é a batalha de nossas vidas”. “A carestia é a questão que mais suplicia o povo brasileiro”. “É necessário que &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="size-medium wp-image-52815 alignleft" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2022/07/adilson-araujo-300x207.jpg" alt="" width="300" height="207" /></p>
<p>Em entrevista ao jornal Hora do Povo, Adilson Araújo, presidente da CTB, falou a respeito do que pensa e o que sente sobre o momento que vive o país.</p>
<p>Expôs ideias como: “A próxima eleição é a batalha de nossas vidas”. “A carestia é a questão que mais suplicia o povo brasileiro”. “É necessário que o novo governo revogue a EC 95, bem como faça mudanças profundas na política trabalhista”. “O tripé macroeconômico foi nefasto para o país”. “É singular que o movimento sindical se levante”. “A radicalidade consequente simboliza esse novo tempo”. Vamos ao colóquio.</p>
<p>Adilson abriu a conversa com um pressuposto: “Enquanto o povo pena, uma quadrilha tomou de assalto o Palácio do Planalto para se locupletar e realizar seus desejos ou suas taras pessoais. Está claro que em 2022 acontecerão as eleições das nossas vidas. Nós precisamos ganhar as eleições para dar passos na reconstrução do nosso país”.</p>
<p><strong>Tripé macroeconômico é nefasto</strong></p>
<p>Para Adilson, “a carestia castiga ainda mais a nossa gente”. Considera ser “consequência dessa política nefasta, baseada no tripé macroeconômico de juros escorchantes, 13,25% em junho, câmbio ao sabor do capital externo e arrocho fiscal, ancorada no muro do limite do teto de gastos”. Acusou o governo de submissão compulsiva aos bancos: “Para Bolsonaro e Guedes, a solução da inflação (ou para qualquer outro problema) é encher mais as burras dos banqueiros”.</p>
<p>Adilson deu os números do assalto: “Em 2021, os cinco maiores bancos lucraram 82 bilhões de reais. A cada ponto percentual de juros a mais promovido pelo Banco Central, crescem os gastos do país com os rentistas. O custo da dívida pública em 2022, avaliam os bancos, deverá ser de 580 bilhões de reais”. E as consequências: “No outro lado, estão 27 milhões de desempregados e desalentados, 40 milhões de trabalhadores sem direito algum, na informalidade. A carestia aprofunda a miséria, a fome, o arrocho e alimenta a especulação”.</p>
<p><strong>Pandemia: massacre do povo e mais $ para os ricos</strong></p>
<p>Segundo o líder sindical, “o aumento dos juros não tem contribuído em nada no controle da inflação. Ela segue alta e o rebatimento nos preços dos alimentos e dos combustíveis é emblemático”. Adilson falou que “antes da pandemia, já tínhamos o rentismo e o capital externo abocanhando volumes assombrosos de nossas riquezas. A situação piorou por demais. Se, antes, 1% dos mais ricos detinham 28% da riqueza do país, passados esses dois anos, o 1% possui 49,3% de nossa riqueza. A isso se escancara a realidade, em que 33 milhões de brasileiros passam fome e 125 milhões têm insegurança alimentar, ou seja, a comida de amanhã se resolve na batalha de hoje”.</p>
<p>“Voltamos a ter 200 mortos por dia. Chegamos a 671.000 mortos, 10% do total do planeta, por responsabilidade de um governo genocida e corrupto. Vale dizer que esse governo está enlameado até a alma”.</p>
<p><strong>Privatização</strong></p>
<p>“Nosso povo é vítima da desindustrialização”. No diagnóstico do sindicalista, “sobretudo, somos vítimas da compulsão doentia em entregar nossas empresas estratégicas à ganância do rentismo e do capital estrangeiro”.</p>
<p><strong>Reforma Trabalhista é escravidão</strong></p>
<p>Na avaliação de Adilson, “para os que ainda estão trabalhando, os patrões querem impor a total precarização do trabalho. Divulgam a ideia que o Brasil demanda o trabalho análogo à escravidão. Querem regredir há três, quatro séculos com essa perversão escravocrata”.</p>
<p>Ressaltou que o salário mínimo, de R$ 1.212,00, conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), deveria se R$ 6.395,00. “A cesta básica em São Paulo chegou a R$ 804,00. Se nós adicionarmos nessa conta um botijão de gás, que já está em até R$ 170,00, só aí temos 80% do salário mínimo”.</p>
<p>Citando novamente o Dieese, disse que 92% dos acordos salariais em abril não tiveram aumento real, já somando três anos de perdas, e que a renda média do brasileiro, medido pelo IBGE no último trimestre encerrado em maio, registrou queda de 7,2%.</p>
<p>Para Adilson, “é necessário uma profunda mudança nessa investida que se viu ganhar espaço, a partir do golpe de 2016, de imposição de uma severa agenda de subtração de direitos, do fim da CLT, de um ataque, na forma da lei, ao direito constitucional do trabalho e na imposição de um modo de trabalho análogo à escravidão em pleno século 21”.</p>
<p>“É também singular que, nesse novo tempo, o movimento sindical possa se levantar”, considerou.</p>
<p><strong>O que fazer</strong></p>
<p>“O principal agora é fortalecer a presença dos trabalhadores, para termos condições de indicarmos os caminhos da reconstrução do país”, avaliou. Ressalta que “o encontro que reuniu os sete partidos que compõem o leque de alianças que apoia a pré-candidatura Lula e Alckmin – a Federação ‘Brasil da Esperança’ – formada pelo PT, PCdoB e PV, assim como PSB, PSOL, Solidariedade e a Rede – dá um grande passo quando apresenta para a sociedade um programa com diretrizes concretas no sentido de um projeto de nacional de desenvolvimento, com centralidade na valorização do trabalho”.</p>
<p>Acredita que “as diretrizes possibilitam unir a nossa gente, garantir a vitória eleitoral e, sobretudo, criar condições de realizar a reconstrução do país”. ”Propõe que o “ponto de partida seja promover um acordo nacional sobre a necessidade de abrir um novo ciclo no país, com uma política de geração de emprego e renda, a garantia de uma renda básica permanente para o povo que mais necessita, a universalização dos serviços públicos, uma vez que a pandemia decantou uma série de deficiências, a prioridade para criação de um polo industrial da saúde”.</p>
<p>“É singular a necessidade de revogar o diabo da Emenda Constitucional 95, que cria dificuldades e engessa os investimentos públicos, gerando dificuldades para Federação e para estados e municípios”, assegurou.</p>
<p>Adilson ressaltou “a necessidade de unir nossa gente, num esforço pela reindustrialização com a ocupação dos espaços públicos, com investimento público, que permitam a utilização dos avanços tecnológicos e de tudo aquilo que está à disposição, desde a indústria 4.0, a inteligência artificial, a tecnologia 5G”.</p>
<p>Afirmou que “a porta maior é a luta política para que a gente possa eleger um governo do campo democrático popular, que retome o caminho do progresso. Como disse o grande filósofo Antonio Gramsci, ‘o desafio da modernidade é viver sem ilusões, nem tão pouco se tornar desiludido’. Lutar é o caminho. Eu penso que a radicalidade consequente simboliza esse novo tempo para que a gente possa sacudir a poeira e dar a volta por cima”, concluiu.</p>
<p>Por Carlos Pereira, <a href="https://horadopovo.com.br/">no Hora do Povo</a></p>
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		<title>Entrevista: Falta de condenações na pandemia pode incentivar escravidão moderna, diz procuradora</title>
		<link>https://bancarios.com.br/entrevista-falta-de-condenacoes-na-pandemia-pode-incentivar-escravidao-moderna-diz-procuradora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ascom]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Feb 2022 13:12:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Abolida apenas no papel, a escravidão tem novas faces no Brasil e se dá por meio de jornadas exaustivas, condições degradantes e restrições à locomoção de trabalhadores em razão de dívidas. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Previdência, só no ano de 2021, cerca de 1.940 pessoas foram resgatadas em situação de &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" class="size-full wp-image-51052 aligncenter" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2022/02/image_processing20211129-32129-1rvnv0o.jpeg" alt="" width="600" height="368" />Abolida apenas no papel, a escravidão tem novas faces no Brasil e se dá por meio de jornadas exaustivas, condições degradantes e restrições à locomoção de trabalhadores em razão de dívidas.</p>
<p>De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Previdência, só no ano de 2021, cerca de 1.940 pessoas foram resgatadas em situação de escravidão contemporânea, em que 90% eram homens e 80% se declararam negros ou pardos.</p>
<p>Ao programa Entrevista Central, a Procuradora do Trabalho e Coordenadora Nacional da Coordenadoria de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete), Lys Sobral Cardoso, explica que a pandemia intensificou o quadro escravocrata contemporâneo e fala sobre os avanços e falhas do Estado na fiscalização e combate a essa realidade.</p>
<p>&#8220;A pandemia piorou as condições da população de modo geral e aumentou o grau de vulnerabilidade socioeconômica das pessoas, fator que foi determinante para a permanência das formas de escravidão contemporânea do nosso país. O Estado precisa investir mais no atendimento a essas pessoas resgatadas&#8221;, avalia Sobral.</p>
<p>Com uma estrutura de fiscalização e combate reduzida em cerca de 50%, Sobral cobra a ampliação da rede de atendimento, a fim de qualificar o trabalho e garantir a assistência necessária às vítimas de trabalho escravo e o fim do ciclo de exploração.</p>
<p>“O que a gente já tem identificado hoje é a necessidade de ampliação da rede de atendimento a essas pessoas, para prestar um atendimento social, socioeconômico via assistência social, mas não só. Também é preciso garantir formas de trabalho e garantia de renda, para que essa pessoa possa quebrar o ciclo de exploração”, cobra Sobral.</p>
<p><strong>Confira a entrevista completa.</strong></p>
<p><img loading="lazy" class="size-full wp-image-51053 aligncenter" src="https://bancarios.com.br/wp-content/uploads/2022/02/image_processing20220202-17965-8nmy1b.jpeg" alt="" width="620" height="413" /></p>
<p><strong>Brasil de Fato:</strong> Na semana passada, foi realizada uma operação de trabalhadores em condições análogas à escravidão. Só em Minas Gerais, mais de 270 pessoas foram resgatadas. Como as estatísticas de resgate vêm se desenhando nos últimos anos?</p>
<p><strong>Lys Sobral:</strong> Em 2021 nós tivemos o maior número de pessoas resgatadas desde 2013. Embora ainda não tenhamos realizado uma análise qualitativa sobre esse fenômeno, a nossa suspeita é que a pandemia, a crise sanitária da Covid-19 piorou as condições da população de modo geral, aumentou o grau de vulnerabilidade social das pessoas, e isso é determinante, é uma das causas centrais de escravidão contemporânea no nosso país.</p>
<p><strong>Em quais condições esses trabalhadores são resgatados?</strong></p>
<p>O código penal define o que é trabalho análogo à escravidão. Antes, já gostaria de fazer uma consideração sobre o porquê de falar em “trabalho análogo à escravidão”. A lei chama assim para diferenciar de quando a escravidão era legalmente permitida no país, mas o fenômeno em si é trabalho escravo. O código penal define o trabalho análogo à escravidão em quatro modalidades, que são: trabalho forçado, servidão por dívidas, jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho.</p>
<p>Na prática, o que temos visto é a ausência de alojamentos ou alojamentos em condições que não atendem o mínimo que a lei prevê; ausência de fornecimento de água e alimentação minimamente saudáveis, falta de equipamentos para trabalhar; ausência de concessão e remuneração dos descansos que a lei prevê. A fiscalização sempre considera um conjunto de irregularidades que são analisadas caso a caso.</p>
<p>Outras variantes também são avaliadas, como o tempo de prestação de serviços, que é um dos fatores que pode influenciar. A própria Covid-19, quando um grupo de trabalhadores está sujeito à exposição ao vírus, quando uma pessoa não é devidamente isolada ou não há controle das medidas sanitárias, no conjunto isso pode levar à caracterização de trabalho escravo.</p>
<p><strong>Qual tipo de atividade econômica tem sido responsável por colocar os trabalhadores em condições análogas à escravidão?</strong></p>
<p>Em 2021, a atividade econômica onde mais se encontrou pessoas sujeitas à escravidão foi a colheita de café, mas fazendo um resgate histórico, são muitas atividades e setores econômicos, como o beneficiamento de soja, de milho, castanha, casas de farinha, carvoarias, madeireiras, fazendas de gado, são algumas das atividades onde encontramos trabalho escravo.</p>
<p>Além disso, destaca-se o trabalho doméstico, que está no radar de fiscalização, porque o número de denúncias tem aumentado.</p>
<p><strong>Qual o perfil social e econômico dos trabalhadores resgatados?</strong></p>
<p>Existem alguns estudos já feitos sobre o perfil das pessoas que acabam sendo exploradas em formas contemporâneas de escravidão. São pessoas que já passaram por alguma situação de trabalho infantil, em grande maioria composta por homens e ligados a alguma atividade rural. Em 2021, 89% das pessoas resgatadas foram oriundas do meio rural e esse é o perfil predominante do que aconteceu de 1995 para cá. Destaco 1995 porque foi o ano em que foi criado o Grupo Nacional de Fiscalização Móvel.</p>
<p><strong>E após o resgate, por meio das operações, de que maneira esses trabalhadores são reparados judicialmente?</strong></p>
<p>Esse é, inclusive, um dos grandes desafios que o estado brasileiro tem para 2022 e para os próximos anos, porque a política pública de atendimento às vítimas de trabalho escravo no Brasil consiste, basicamente, na concessão de seguro-desemprego. Então, independente do tempo de trabalho daquela pessoa, ela tem direito a três parcelas do seguro-desemprego, além da garantia das indenizações, como danos materiais e morais que aquela pessoa sofreu pela exploração.</p>
<p>Mas a indenização muitas vezes depende da construção probatória, é um processo judicial ou extrajudicial via termos de ajustamento de conduta, então existem algumas nuances que, de repente, podem prejudicar a garantia desse direito. O que a gente já tem identificado hoje é a necessidade de ampliação da rede de atendimento a essas pessoas, para prestar um atendimento social, socioeconômico via assistência social, mas não só.</p>
<p>Também é preciso garantir formas de trabalho e garantia de renda, para que essa pessoa possa quebrar o ciclo de exploração, além de atendimento médico, psicológico, enfim, toda a rede precisa se articular cada vez mais para garantir um atendimento às vítimas mais satisfatório pelo estado brasileiro.</p>
<p><strong>O que define a lei sobre a pena para os exploradores e o que na prática ocorre?</strong></p>
<p>Existem duas formas de responsabilização dos empregadores que exploram trabalho escravo no Brasil. Existe a responsabilização criminal, onde o Ministério Público do Trabalho não atua, mas nós temos conhecimento porque acompanhamos a rede de combate. O código prevê uma pena, mas infelizmente no Brasil existem poucos casos de condenação criminal pelo crime de trabalho escravo.</p>
<p>Existe também a responsabilização civil trabalhista, onde entra o Ministério Público do Trabalho. Ela consiste basicamente em obter uma reparação coletiva por aquela violação de direitos humanos, que chamamos de dano coletivo, além da reparação de cada um dos trabalhadores e trabalhadoras submetidos, e também da condenação para que aquele trabalhador não venha a adotar novamente essa prática.</p>
<p><strong>A chamada lista suja, que inclui o nome dos empregadores envolvidos por esse crime e já ficou suspensa por três anos, tem sido devidamente usada?</strong></p>
<p>A lista suja, ou cadastro de trabalhadores que já exploraram trabalho escravo, é um instrumento de transparência. A lista em si não prevê punições, mas é um instrumento de transparência que está disponível para toda a sociedade.</p>
<p>Algumas outras leis preveem restrições para quem explora trabalho escravo no Brasil, como a concessão de créditos bancários. No meio empresarial, referente às relações empresariais que se constituem, sabemos que a lista suja é usada para controle de transações comerciais, de forma que quem explora trabalho escravo não é bem visto no mercado como um todo.</p>
<p><strong>Identificar os casos de trabalho escravo contemporâneo exige fiscalização. Como tem sido o apoio e a estrutura para essas fiscalizações no Brasil hoje?</strong></p>
<p>Com relação à fiscalização, é necessário, no mínimo, manter a estrutura que temos hoje, que consiste nos grupos móveis. O Grupo Nacional Móvel é interinstitucional, coordenado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho, vinculado ao Ministério do Trabalho. Essa é a principal estrutura de combate que temos hoje.</p>
<p>Alguns estados também têm grupos regionais de combate, onde todos eles possuem basicamente a mesma estrutura: coordenados pela auditoria fiscal do trabalho, com a participação do Ministério Público do Trabalho, do Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União, as forças policiais como a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e outras estruturas de polícia como a Polícia Militar, que também participa de algumas ações.</p>
<p>Mas é muito importante destacar que temos um problema central na política brasileira de combate, porque a auditoria fiscal está com um quadro extremamente reduzido, a redução já chega a aproximadamente 50%. O Ministério Público do Trabalho, na qualidade de fiscal da lei, tem insistido na solução desse problema e na realização de concurso público para auditores fiscais do trabalho junto à Conatrae, que é a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo. No plano consta que a estrutura de combate não pode ser reduzida.</p>
<p><strong>Como a população pode denunciar casos de trabalho escravo contemporâneo?</strong></p>
<p>A população precisa denunciar. Os órgãos de fiscalização precisam das denúncias, embora haja também fiscalizações baseadas em rotinas e na inteligência estratégica. Hoje temos alguns canais de fácil acesso para denúncias. Os principais são o Disque 100 e o Disque 180, em casos de violência contra a mulher, que podem acontecer no trabalho.</p>
<p>Não precisa haver uma confirmação, basta que a pessoa suspeite que está acontecendo algo errado. O Ministério Público do Trabalho também tem alguns canais de denúncias. Temos o aplicativo Pardal, os sites das Procuradorias, onde é possível inclusive anexar documentos, fotografias, áudios e vídeos. A auditoria fiscal do trabalho também tem um instrumento importante de recebimento de denúncias que é o Sistema IPÊ.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entrevista publicada pelo Brasil de Fato.</p>
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