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Entrevista: “O suicídio deve ser entendido como um ato complexo”

Em alusão ao Setembro Amarelo, convidamos a psicóloga, doutora em Psicologia Social do Trabalho e professora da IMS/UFBA, Rayana Santedícola para falar sobre a relação entre saúde mental e trabalho.

O que pode levar uma pessoa a um alto nível de adoecimento mental, sobretudo no ambiente de trabalho? O adoecimento mental no ambiente de trabalho está ligado, sobretudo, a condições de trabalho (horário, salário, recursos disponíveis, benefícios, tempo de repouso, etc.) e a aspectos da organização do trabalho (hierarquia, liderança, mecanismos de divisão e de coordenação, pressão por produtividade, pressão por tempo, controle sobre o trabalhador, trabalho em turnos e trabalho noturno, dentre outros). Tais fatores, associados a aspectos mais amplos como o desemprego e a fatores individuais, familiares e socioeconômicos, podem predispor os indivíduos a um maior risco de adoecimento mental.

Dados do Ministério da Saúde apontam que, em 2016, 11.433 suicídios foram registrados no Brasil. Outra pesquisa, mais antiga, revelou que 181 bancários tiraram a própria vida entre 1996 e 2005, e de lá para cá as notícias de suicídio entre a categoria se tornam cada vez mais frequentes. Por que o bancário está entre os trabalhadores que mais sofrem psiquicamente? É importante considerar que a “onda de suicídio” relatada entre os bancários nos anos especificados ocorreu após a flexibilização das relações de trabalho no Brasil, que, associada a mudanças no mundo do trabalho, à globalização e à informatização, e principalmente à diminuição do papel protetor do Estado, trouxeram muita instabilidade e competitividade, alterando drasticamente as relações de trabalho e impactando diretamente nos ambientes dos bancos. De lá para cá, este cenário se instalou e alterou os papéis e as funções que eram exercidas anteriormente nos contextos bancários, acirrando ainda mais a competitividade e aumentando a pressão por vendas em uma função que era limitada à burocracia e possuía garantias de permanência e emprego por toda a vida. O sofrimento psíquico acontece quando necessidades humanas como: segurança, estima, interação social segura e autorrealização não são plenamente satisfeitas, levando a um estado de insegurança social e pessoal, e colocando em risco até mesmo a satisfação de necessidades humanas básicas (sobrevivência). Aliado a isso, exige-se dos trabalhadores estados de motivação que não são compatíveis com a satisfação mínima de necessidades humanas.

Quais os comportamentos mais comuns que podem ser observados no trabalhador que está em sofrimento e pensando em tirar a própria vida? Os comportamentos indicadores de suicídio vão desde a desesperança, a desatenção e a referência à perda de sentido da vida, até falas e atos mais diretamente relacionados à tentativa de tirar a própria vida. Fatores que podem servir de alerta são: perda de autocuidado, faltas constantes ao trabalho, a existência de sérios conflitos familiares, isolamento ou desengajamento social nos momentos de confraternização (almoço ou café na empresa), até falas mais diretas como “vocês vão se livrar de mim”, “não darei mais trabalho para vocês”, que geralmente são direcionadas a colegas de trabalho ou a pessoas com as quais o trabalhador tem mais intimidade. As tentativas de suicídio estão associadas a variáveis como depressão, alcoolismo, uso de substâncias químicas e psicoativos, estresse, solidão e perda de suporte social. É importante considerar que para Pietro e Tavares (2005), 90% dos casos de pessoas que cometem suicídio se associam a algum distúrbio psiquiátrico. No ambiente de trabalho, entretanto, essa identificação é complexa e difícil, pois o indivíduo está cumprindo normas e regras que vão além das suas tarefas e normatizam seu próprio comportamento, sendo muitas vezes impossível verificar alterações significativas que sejam indicativas de pensamentos suicidas.

De que forma as empresas podem se implicar e contribuir com a saúde mental dos seus funcionários? Ao se considerar a complexidade do fenômeno, as empresas devem procurar valorizar a saúde mental de seus trabalhadores, buscando estar atentas a sinais de baixa produtividade, absenteísmo, alto índice de atestados médicos como sinais de que “algo não vai bem” na empresa. A administração participativa é uma estratégia que facilita a emergência da Voz do Trabalhador, através da qual os gestores têm acesso aos principais problemas desde o assédio moral até conflitos interpessoais entre colegas e entre colegas e gestores. A empresas que se preocupam com a qualidade de vida no trabalho desenvolvem valores mais humanos em seus gestores, que se tornam elementos estratégicos na identificação de comportamentos contraproducentes e sinais de sofrimento mental. As empresas devem realizar também palestras e campanhas de valorização da vida, de combate ao assédio moral e sexual, realizadas por equipes multidisciplinares com a presença de profissionais da saúde mental (psicólogos e psiquiatras). A desmistificação da psicoterapia e da utilização de medicação psicotrópica, quando necessário e quando feita em ambiente empresarial, contribui para que o trabalhador se sinta estimulado a reconhecer os sinais e a buscar auxílio quando está em sofrimento mental.

Como prevenir o suicídio? Conforme diz a literatura, não se pode afirmar por uma causalidade direta entre as condições de trabalho e o suicídio. O suicídio é uma questão que pode expressar fatores individuais, grupais e sociais mais amplos, que geralmente estão interligados, mas que tendem a se expressar mais fortemente em momentos de alto desemprego, descoberta de doença crônica ou incapacitante, alta competitividade e escassez de recursos de sobrevivência. Há uma multiplicidade de fatores que estão associadas ao mesmo, como foi dito antes, e que requerem um conjunto de medidas de toda a sociedade e das empresas em particular, que incluem a busca de condições de trabalho mais saudáveis e de ambientes de trabalho mais leves e com espaços de participação e escuta dos trabalhadores, através das quais os gestores possam identificar mais facilmente sinais de alerta conforme os indicados acima.

As opiniões expressas não refletem, necessariamente, o posicionamento da diretoria do SEEB/VCR.

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