
Por Carlos Nascimento*
A completa desconstrução da ordem mundial — se é que em algum momento houve uma — está em curso. A intervenção na Venezuela consolida um cenário de guerra global, marcado por um profundo desequilíbrio de forças. Quem se impõe é, sobretudo, o capitalismo, ora personificado pelo império de Trump. Nada parece capaz de se opor a essa dinâmica, o que significa que estamos todos, todos, absolutamente entregues e vulneráveis a essa onipotência.
Volto sempre ao mundo desregulamentado. Para mim, o Uber simboliza essa realidade: um sistema de transporte sem — ou quase sem — fiscalização, que submete o usuário a um serviço de qualidade imprecisa, inteiramente moldado pelas necessidades impostas pela crise perpétua criada e mantida por este sistema (SANTOS, 2020). De um lado, há pessoas desempregadas ou com baixa renda, precisando trabalhar; do outro, indivíduos também sem recursos, que contratarão, por legítima necessidade, o serviço mais barato. Sobrevivência.
A combinação desses fatores leva à falência completa das instituições. Uma falência avassaladora em múltiplas esferas, como ocorre agora no sistema bancário, onde empresas dos mais diversos ramos se tornam financeiras, sem qualquer regra que proteja seus empregados ou clientes. Uber, fintechs, OnlyFans, o “América para os americanos”, entre muitos outros, sorvem o poder de seus usuários — clientes e “colaboradores” — convencendo-os de que estão exercendo sua liberdade de escolha.
Para mim, o ataque estadunidense se traduz nisso. Como já ocorre na Palestina, ninguém conseguirá se opor de forma efetiva, haja vista que a própria crise permanente já citada, prende todas as nações num mesmo sistema, pouco importando a vida e o direito real à liberdade dos mais afetados. E nós, há muito sequestrados por essa lógica, só nos resta assistir e, no máximo, postar alguns cliques de repúdio nas redes. Gestos ingênuos que seguem enriquecendo aqueles que as controlam.
* Carlos Augusto Fernandes do Nascimento é Diretor de Cultura e Formação Sindical do SEEB/VCR e mestre em Ciências da Comunicação.
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