Mudar o cenário tenebroso de feminicídios, agressões e estupros depende de transformações profundas e complexas, mas em especial de uma tomada de consciência por parte dos homens

Todos os dias — com um misto de incredulidade, indignação e asco — nos deparamos com notícias sobre mais um feminicídio; sobre o avanço no número de estupros e agressões; sobre meninas que têm sua infância destruída por violações sexuais e outras violações de direitos básicos; sobre mulheres sendo atacadas nas redes, na política, nas ruas. E em praticamente todos os casos, esses crimes são cometidos por homens.
É forçoso lembrar, ainda, que dois dos crimes mais graves envolvendo a condição feminina — os feminicídios e os estupros, sobretudo de vulneráveis — têm como autores companheiros, ex-companheiros ou homens próximos.
O Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024; outras 3.870 sofreram tentativas. Nos casos consumados, 97% dos autores eram homens e oito em cada dez eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
Dezenas de casos de feminicídio já aconteceram neste ano, o qual ainda está no segundo mês. Um dos estados com o pior desempenho nesse ranking macabro é o Rio Grande do Sul, com 18 ocorrências apenas em janeiro.
O recente caso de Tainara Santos — que perdeu a vida um mês após ser atropelada e arrastada por um carro dirigido por um ex-parceiro, em São Paulo — ilustra bem esse quadro de terror e covardia. Um adendo: nesta terça-feira (24), uma amiga dela, Priscila Verson, também foi vítima de feminicídio na capital paulista — o suspeito é o próprio companheiro.
Outro crime abominável que se tornou rotineiro é a violência sexual contra meninas. Os dados mostram que elas não estão seguras nem mesmo (e principalmente) dentro de casa, na companhia de parentes.
Segundo o mesmo Anuário, 2024 registrou o maior número de estupros da história, inclusive de vulneráveis: foram mais de 87 mil casos, sendo 87% das vítimas do sexo feminino. Desses, 77% foram contra vulneráveis — a maior parte das vítimas, 33%, eram crianças na faixa dos dez aos treze anos e 18%, entre os cinco e os nove anos. 66% dos casos ocorreram dentro de suas próprias casas e 45% foram cometidos por familiares — a maioria dos quais, homens.
Nesse cenário de horror, também há espaço para situações em que as próprias instituições de Estado — que têm a obrigação de cumprir a lei e proteger essas meninas e mulheres — atuam no sentido de vitimá-las novamente, relativizar a violência e agir sob uma “lógica” que de tão absurda inviabiliza qualquer sentido.
Foi o que aconteceu em Minas, onde dois desembargadores acharam razoável absolver um homem de 35 anos (com passagens anteriores por homicídio e tráfico) que havia sido condenado em primeira instância por viver com uma menina de 12 anos. O argumento do relator, seguido por seu colega, foi de que havia “vínculo afetivo consensual” entre o homem e a menina. O único voto divergente coube à desembargadora Karin Emmerich.
Nesta quarta-feira (25), após a repercussão negativa, o desembargador e relator do processo, Magid Nauef Láuar — ele mesmo investigado por denúncias de abuso sexual — resolveu reverter a decisão.
Como se não bastasse tudo isso, há ainda muitos outros tipos de violências embutidas no cotidiano feminino e no das vítimas desses e de outros crimes.
Afinal, quantas mulheres já foram “culpadas” pela violência que elas mesmas sofreram sob o argumento de que estavam usando “roupas inadequadas” ou andavam muito tarde na rua? Quantas jovens já tiveram sua intimidade invadida e exposta nas redes sociais?
Quantas meninas foram assediadas ou violentadas por homens muito mais velhos, que comumente alegam ter “pintado um clima”, homens esses que agem como se não houvesse alternativa senão “pegar” uma dessas meninas que “provocaram seus desejos”?
Quantas foram ridicularizadas ou descredibilizadas ao recorrer às polícias ou aos operadores do sistema jurídico? Quantas foram taxadas de “malucas”, “paranoicas”, “mal-amadas” por reagirem a um assédio, por pedirem socorro, por denunciarem o que realmente acontecia entre quatro paredes?
Em meio a tudo isso, fico me perguntando qual a dificuldade de os homens compreenderem algo tão básico, sintetizado em frases tão simples e diretas como “chega de nos matar”, “não é não”, “criança não é mãe (ou esposa)”, “estuprador não é pai (ou marido)”.
Qual a dificuldade deles entenderem que as mulheres e meninas não são suas propriedades ou “pedaços de carne” à sua disposição para usarem e abusarem como e quando quiserem? Qual a dificuldade de entender que todas as mulheres e meninas têm direitos assegurados em lei?
E qual a dificuldade, afinal, de entender que a luta feminista não é para castigar ou subjugar os homens, mas tão somente para acabar com uma desigualdade milenar que, ao longo da história, relegou às mulheres um papel que elas não pediram de submissão, desrespeito e objetificação?
A atual onda de violência de gênero, obviamente, tem raízes históricas e estruturais resultantes do sistema patriarcal, do machismo e da misoginia acalentados ao longo de séculos. Porém, o que vivemos hoje vai além e se parece com uma espécie de ultra-machismo, ultra-misoginia, algo sádico e vingativo.
O que a realidade parece indicar é que a violência contra as mulheres ganhou maior impulso e apoio a partir da mobilização de sentimentos como o ódio e o ressentimento por parte de lideranças e seguidores da extrema direita, tendo como instrumento primordial as redes sociais. E nunca é demais lembrar que esses espaços são comandados por homens bilionários, alinhados a esse campo político, que não ligam se vidas estão sendo destruídas desde que seus lucros exorbitantes continuem garantidos.
Mudar esse estado de coisas brutal é algo urgente e, ao mesmo tempo, complexo. A realidade tem evidenciado que leis e punição aos responsáveis são fundamentais, mas não bastam.
Essa transformação exige, entre outras medidas, a regulação das redes; um forte e contínuo processo educacional que promova a igualdade, bem como ações e políticas públicas efetivas envolvendo os Três Poderes. O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, lançado no início de fevereiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma importante iniciativa nesse sentido.
Para viabilizar essas e outras medidas, também é crucial barrar a extrema direita nas próximas eleições, sobretudo na presidência da República e no Congresso Nacional. Afinal, é bom lembrar que com Jair Bolsonaro (PL), o ódio às mulheres foi naturalizado e estimulado; armas de fogo tiveram seu acesso facilitado; o Ministério das Mulheres foi desarticulado e verbas para importantes políticas públicas foram cortadas.
Mas, há um fator-chave que facilitaria e agilizaria muito a transformação desse cenário: a tomada de consciência e a mudança comportamental por parte dos homens que, em sua maioria, ainda agem como se a violência de gênero não lhes dissesse respeito. A cada um deles, fica uma pergunta para reflexão: Afinal, até quando vocês vão continuar lavando as mãos em relação à violência que agride e mata tantas mulheres?
Fonte: Vermelho
Sindicato dos Bancários Sindicato dos Bancários