Com Selic a 15% ao ano, crédito encarece, consumo retrai e famílias sufocam com taxas abusivas, enquanto BC admite que política monetária agressiva freia a economia sem controlar preços

A política de juros estratosféricos mantida pelo Banco Central (BC) começou a cobrar seu preço mais visível e doloroso: o bolso do cidadão e a saúde das empresas. Em janeiro de 2026, a inadimplência de consumidores e companhias em empréstimos com recursos livres atingiu 5,5%, o nível mais alto desde agosto de 2017.
O dado, divulgado na quarta-feira (25), não é apenas um número estatístico; é o termômetro de uma economia que está sendo deliberadamente esfriada a ponto de congelar o crédito e aspergir a população com taxas de juros que beiram o absurdo.
Enquanto a autoridade monetária sinaliza uma possível — e tardia — redução da taxa Selic apenas para março, o estrago já está feito. Com a básica em 15% ao ano, o patamar mais elevado em quase duas décadas, o sistema financeiro repassou esse custo de forma amplificada, transformando o acesso ao dinheiro em um privilégio para poucos e uma armadilha para muitos.
O muro dos juros abusivos
A lógica do Banco Central é teórica: elevar os juros para conter a inflação, desestimulando o consumo. Na prática, o que se vê é um estrangulamento da atividade econômica sem o devido controle dos preços, penalizando severamente quem mais precisa de fôlego financeiro. Os números de janeiro são contundentes: os juros médios cobrados das pessoas físicas dispararam para 61% ao ano.
O cenário torna-se dantesco quando se observa as modalidades de crédito de emergência. O cartão de crédito rotativo, último recurso para muitas famílias, opera com uma taxa monstruosa de 424,5% ao ano. Mesmo após um recuo recente, esse percentual representa uma usura que perpetua o ciclo da pobreza e da dívida impagável. Já o parcelamento da fatura do cartão, modalidade que cresce conforme a renda aperta, saltou para 194,9% ao ano, um aumento de quase 18 pontos percentuais em apenas 12 meses.
Para as empresas, o cenário não é menos hostil. A taxa média subiu para 25,2% ao ano, encarecendo o capital de giro e inviabilizando investimentos. O chamado spread bancário — a margem de lucro dos bancos sobre o custo do dinheiro — também se expandiu, chegando a 34,3 pontos percentuais nos recursos livres. Isso indica que, além do custo da Selic, as instituições financeiras estão ampliando suas margens em um momento de maior risco, lucrando com a própria dificuldade de pagamento dos clientes.
Crédito seco e economia paralisada
O efeito colateral imediato dessa política de “terra arrasada” monetária é a contração brutal da oferta de crédito. Em janeiro, as novas concessões de empréstimos caíram 18,9% em relação a dezembro. O estoque total de crédito do sistema financeiro recuou 0,2%, fechando em R$ 7,116 trilhões.
A queda foi generalizada, mas atingiu com violência os recursos direcionados (aqueles com regras governamentais para habitação, agro e infraestrutura), que despencaram 32,9%. Nos recursos livres, onde bancos e clientes negociam diretamente, a retração foi de 17,2%. Esse movimento confirma o receio dos analistas: ao tentar controlar a inflação via demanda, o BC acabou por secar a fonte de financiamento que mantém a máquina econômica girando, afetando tanto o consumo das famílias quanto a produção das indústrias.
Ilusão de estabilidade e realidade social
Em seu último Relatório de Política Monetária, o Banco Central tentou minimizar o avanço da inadimplência ao longo de 2025, atribuindo-o principalmente a “mudanças nas regras de classificação de crédito” e afirmando observar “sinais de estabilização”. Contudo, os dados de janeiro desmentem qualquer otimismo prematuro. A inadimplência subiu pelo segundo mês consecutivo e acumula alta de 1,1 ponto percentual no ano.
O endividamento das famílias, medido pela relação entre dívidas e renda, fechou 2025 em 49,7%, e o comprometimento da renda — o quanto do salário vai direto para pagar boletos — alcançou 29,2%. Esses indicadores, defasados em relação aos dados bancários, sugerem que a pressão sobre o orçamento doméstico só tende a piorar com as taxas praticadas no início de 2026.
Um custo social excessivo
A manutenção da Selic em dois dígitos por tanto tempo revela uma opção de política econômica que prioriza o superávit primário e a remuneração do capital financeiro em detrimento do crescimento e do emprego. O argumento de que é necessário “esfriar a economia” ignora que o freezer já está ligado no máximo há meses, e quem está congelando são as pequenas empresas e os trabalhadores endividados.
Com a inadimplência batendo recordes históricos e o crédito minguando, fica evidente que a estratégia de juros altos atingiu seu limite de eficácia e ultrapassou a fronteira do razoável. Enquanto o BC hesita em cortar a taxa básica, prometendo alívio apenas para um futuro próximo incerto, a conta dos juros compostos continua chegando, salgada e excludente, para a base da pirâmide social. A pergunta que fica não é mais se a inflação será controlada, mas quantos negócios e famílias precisarão falir para que a autoridade monetária considere que o “dever de casa” foi feito.
Fonte: Vermelho
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