Home / Sindicato / Diretor do SEEB/VCR retorna do programa Embarque-Caixa

Diretor do SEEB/VCR retorna do programa Embarque-Caixa

No dia 19 de junho, foi anunciado que o diretor de Cultura e Formação, Carlos Augusto, havia renunciado ao cargo por uma exigência da Caixa Econômica Federal (CEF), para participar do programa Embarque-Caixa, iniciativa que leva atendimento bancário às populações ribeirinhas da Amazônia.

Entretanto, após uma revisão do banco, a necessidade de revogação foi dispensada, tendo em vista que o mesmo participou de uma atividade fora da base temporariamente, e apenas haveria a exigência de afastamento. Sendo assim, a renúncia não foi efetivada.

Na sequência, Carlos deixa seu relato sobre a experiência de trabalho na Amazônia. Confira:

 

A JORNADA

Amaturá, o porto final. Hoje, 26 de junho de 2026, encerramos nossa empreitada pelo rio Amazonas no atendimento às comunidades indígenas e beiradeiras desta região. Durante vinte e um dias, nosso grupo — formado por sete empregados da Caixa, um do INSS, além de doze tripulantes — atendeu a mais de três mil pessoas em sete municípios do Médio e Alto Solimões. Experiências que marcarão definitivamente nossas vidas e, com certeza, melhorarão a dos que recebemos nesta agência-barco.

Das minhas sensações mais fortes, a de ter conhecido um outro país, um lugar exótico em todas as formas, de uma maneira que nenhuma excursão turística poderia proporcionar. Ao navegar por horas, dias, para alcançar cidades, pude compreender um pouco do tamanho e do tempo que são necessários para se conhecer essas terras. Tudo é colossal, incabível, imensurável. Mesmo com tanta experiência de mar, sinto que nunca vi tanta água. O rio é tudo: é o caminho da vida e, em muitos casos, da morte. E é através dessa veia de cor barrenta e negra, emoldurada pela selva, que nos embrenhamos para oferecer algum afago a estes povos.

Nossa missão, diferentemente da dos colonizadores e missionários que por aqui passaram anteriormente — e ainda passam —, é a de devolver a essas populações um pouco, muito pouco na verdade, do que lhes é tirado todos os dias, por meio da exploração da mata, da violência, da aculturação e da crueza de um mundo capitalista, centrado na acumulação inconsequente de riquezas. A meu ver, os valores a que damos acesso a essas pessoas, por meio de programas sociais como o Bolsa Família, Bolsa Verde e Pé-de-Meia, na verdade são deles desde sempre. É como se trouxéssemos remédios para curar as gripes e doenças que nossos antepassados aqui implantaram. Doenças que dizimaram etnias e permanecem a esfacelá-las.

Em minha percepção, a Amazônia Legal existe apenas no papel, nos programas de governo que há décadas buscam dar um ar de sobriedade à sua responsabilidade sobre este território. Não há nada de “legal” aqui, no sentido usual do termo. Nada que possa ser associado ao Brasil que se entende por “civilizado”. A sobrevivência na selva implica normas e comportamentos que são estranhos a tudo o que se possa pensar como sociedade humana. As pessoas são reflexo das matas e dos rios que as alimentam. O respeito a isso talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que aprendi. Aqui não cabem julgamentos, apenas compreensão.

Ao atender dezenas de indígenas, vi-me em espanto, pois, ao longo das inúmeras vezes em que estive em outros países, com algum esforço conseguia encontrar palavras e expressões que viabilizassem algum diálogo em outra língua. Com os Tikuna, não. Nada em nossa comunicação era possível sem o valioso auxílio dos intérpretes que os acompanhavam. E vinha a pergunta: como conseguia falar com gentes do estrangeiro e não consigo com meu próprio povo? E a pergunta que se sucede: que povo? Em que lugar me sinto brasileiro? Quem é brasileiro, afinal?

Entendo hoje que todo empregado da Caixa precisaria passar por esta experiência, como um estágio probatório. Mais que uma viagem à selva, trata-se de uma peregrinação necessária para compreender as origens e a verdadeira vocação deste banco público; de como a presença do Estado se faz necessária em todo o território brasileiro, tanto em lugares isolados e esquecidos como este, quanto em milhares de outras paragens do nosso país, inclusive os grandes centros urbanos.

E, para concluir, aos que sustentam e corroboram com as críticas aos programas sociais, ao dito “assistencialismo” do governo, indago: venham aqui! Venham entender como o discurso meritocrático não se sustenta na prática. Como as pessoas trabalham duro, como se organizam longe de tudo, como a luta pela vida envolve questões muito maiores do que um auxílio financeiro mínimo e como esses valores impulsionam as economias locais, geram empregos e, acima de tudo, dão um pouco de dignidade às suas vidas.

Sinto-me imensamente orgulhoso de ter vivido isso e de, por meio desta instituição, à qual tanto critico, ter tido a oportunidade de conhecer um outro Brasil e de ajudar a proporcionar um pouco mais de bem-estar a essas populações.

Agora o retorno. Serão três dias rio abaixo até Manaus. Volto para casa, mas deixo uma parte de mim neste rio. Não sei como cabe, mas também levo esta selva em meu coração apertado, com um respeito imenso por cada pessoa que atendi, pelas coisas que aprendi e, acima de tudo, pela renovação da crença na humanidade.

Veja Mais!

Bancário da Caixa da região do SEEB/VCR participa do programa Embarque-Caixa

O bancário da Caixa Econômica Federal (CEF) e ex-diretor de Cultura e Formação do Sindicato …