Dados do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, indicam aumento de canais misóginos e de inscritos neles no YouTube. Já o Ispos aponta que 31% dos rapazes da Geração Z acham que esposa deve obedecer ao marido

O cenário de disseminação de conteúdos misóginos é um dos pilares da violência contra a mulher. Pelo menos 123 canais brasileiros no YouTube com esse tipo de mensagem estão ativos e somam mais de 23 milhões de inscritos e 130 vídeos publicados.
É o que revela atualização de levantamento de 2024 feito pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério das Mulheres e divulgado nesta semana.
De acordo com os dados colhidos, 90% dos canais que já haviam sido mapeados em 2024 ainda estão disponíveis na plataforma — eles eram, então, 137. Além disso, foi constatado aumento de 18,55% no número de inscritos — que totalizavam, há dois anos, cerca de 19,5 milhões.
Outro ponto é que também aumentou o número de vídeos publicados por esses canais: foram 25 mil a mais ante 2024, quando somavam 105 mil; 20 mudaram de nome e alguns retiraram referências à machosfera de seus títulos.
Ainda segundo o estudo, no momento da pesquisa inicial, em 2024, os 14 canais removidos somavam 1,37 milhão de inscritos.
Apesar de o vídeo mais antigo analisado ter sido postado em 2018, 88% deles foram publicados a partir de 2021, e pouco mais da metade (52%) entrou na plataforma entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Já de abril para cá, cerca de 25 mil novos vídeos foram postados.
“Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo da ‘machosfera’ e do volume de conteúdos potencialmente misóginos no YouTube”, diz o relatório.
Nesse universo, o levantamento aponta que “predominam conteúdos que disseminam teorias conspiratórias prejudiciais à igualdade de gênero e comportamentos nocivos às mulheres disfarçados de estratégias de valorização dos homens”.
O estudo chama atenção, ainda, para o fato de que os vídeos expressam “aversão, desprezo, controle e ódio às mulheres, com comentários direcionados a grupos específicos, tratados de forma generalizada, como ‘as feministas’, ‘as mães solteiras’ e ‘as mulheres mais velhas’. Com isso, perpetuam comportamentos hostis, fortalecendo um cenário discriminatório contra mulheres
no YouTube”.
À Agência Brasil, Luciane Belín, do NetLab, alertou para o fato de que, mais do que uma expressão do machismo, esses conteúdos geram lucro para os donos dos canais e a plataforma. “Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres”, explicou.
O estudo sobre o YouTube é um indicativo de como as mulheres vêm sendo tratadas em diversas redes sociais. Nesta semana, por exemplo, uma nova “trend” — tipo de conteúdo do momento, que viraliza rapidamente — mostra rapazes encenando como devem reagir, agressivamente, caso “elas digam não”.
Frente à repercussão, vídeos desse tipo foram removidos do TikTok. A Polícia Federal está investigando o caso e já identificou 15 desses perfis.
Jovens retrógrados
Também nesta semana, um levantamento feito pelo Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London aponta que 31% dos jovens do sexo masculino (nascidos entre 1997 e 2012) acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido. O índice é mais que o dobro do registrado entre os homens nascidos entre 1946 e 1964 — conhecidos como Baby Boomers.
Além disso, 33% concordam que o marido “deve ter a palavra final nas decisões importantes (ante 17% da geração mais antiga).
“A chamada machosfera — com Red Pills, incels e influenciadores antifeministas — cresce nas redes sociais e alcança milhões de jovens. Enquanto isso, mulheres seguem sendo vítimas de violência física, simbólica e digital”, destacou a líder no PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), uma das deputadas mais atuantes na luta contra a violência de gênero.
Para ela, “é preciso combater com firmeza essa ira digital e responsabilizar esse movimento criminoso. Combater a misoginia também é defender democracia, direitos humanos e igualdade”.
Fonte: Vermelho
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