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Entrevista: “A solução não é individual, ela precisa ser coletiva”

Conversamos com o secretário Geral da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe, Emanoel Souza, que esteve em Vitória da Conquista para se reunir com os funcionários da Caixa e discutir temas como reestruturação, condições de trabalho e o Saúde Caixa. Confira.

A reestruturação da Caixa denuncia cada vez mais a intenção do governo: torná-lo um banco com foco comercial. Quais os impactos da última medida anunciada, com a redução do número de Superintendências Regionais (SR) e a criação de outras instâncias de decisão no banco, como as Superintendências Executivas na rede, para os funcionários da Caixa? Primeiramente achamos muito estranha essa reestruturação feita sem qualquer discussão com a representação dos empregados, de cima para baixo, reduzindo estruturas e remodelando uma instituição que está dando certo. Todas as Superintendências Regionais (SRs), sem exceção, bateram suas metas e atingiram um grau de excelência. Aqui em Conquista está sendo fechada a SR, a Gerência de Habitação e a Gerência de Governo, subordinando-as à Feira de Santana. Isso já cria uma burocracia. O que teremos aqui será uma Superintendência Executiva de Varejo, uma Superintendência Executiva de Habitação e Superintendência Executiva de Governo, com uma estrutura pequena e que não vai agilizar trabalho nenhum. Estamos lutando para que suspendam a reestruturação e sentem para negociar de modo que possamos dialogar e ver se esse é o caminho.

Isso tende, então, a gerar uma sobrecarga de trabalho? Como você acha que serão sentidos os impactos no cotidiano dos bancários? Essa sobrecarga já vem sendo sentida há muito tempo. Em 2015 éramos 105 mil funcionários, hoje somos 83 mil bancários da Caixa e já estão falando de um novo Plano de Demissão Voluntária (PDV). Nesse período todo só houve uma contratação de 2 mil e poucos colegas PCDs (pessoas com deficiência) que estão indo ajudar, e que ainda estão sem acesso ao Saúde Caixa. O grau de adoecimento mental no banco tem sido visível. A cada dia muda a rotina, os manuais, a estrutura, e isso cria um clima muito ruim dentro da empresa.

De que forma esse cenário de adoecimento pode ser combatido? Todos os empregados precisam entender que a solução não é individual, ela precisa ser coletiva. É preciso que a gente tenha calma, que se unifique em torno do Sindicato, que tenhamos unidade dentro de cada agência e cuidemos uns dos outros. No adoecimento mental, se você observar, vai conseguir ver e chegar, dar uma palavra amiga, permitir que a pessoa desabafe e evitar até mesmo uma tragédia. Esse é um momento de buscarmos soluções coletivas, que passam pela luta junto ao Sindicato.

Quais são os maiores riscos que o teto de custeio de 6,5% e a CGPAR 23 – resolução da Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias da União – têm apresentado aos usuários do Saúde Caixa? A Caixa já apresentou o teto e colocou no seu estatuto. Nunca vi uma empresa do tamanho da Caixa Econômica colocar no seu estatuto o teto de gastos com assistência médica aos seus empregados, mas ela colocou. Até 2019, a contribuição da empresa esteve abaixo do teto, mas, depois de muita pressão que fizemos, eles abriram os números do Saúde Caixa, que era uma verdadeira caixa preta. Informaram que houve um déficit nos últimos três anos, mas ao abrir os dados, nos permitiram saber que o Saúde Caixa estava superavitário havia mais de 10 anos. Ainda há um superávit de R$ 544 milhões. Não é do nosso interesse que o plano esteja deficitário, estamos dispostos a negociar no sentido de criar mecanismos que possam garantir um reajuste, desde que se mantenha a participação da Caixa nos moldes 70/30. Podemos discutir mensalidade, teto anual e construir junto com a empresa uma proposta para a Campanha Salarial que traga tranquilidade para os usuários do Saúde Caixa.

A privatização da Caixa e do BB ainda é motivo de apreensão para bancários e população. Quais as chances dessa privatização ocorrer e suas consequências para trabalhadores e usuários dos serviços? Uma privatização nos moldes tradicionais é difícil de acontecer porque a Caixa é muito grande. Ninguém tem capital para comprá-la. O projeto que eles estão estipulando, e talvez essa reestruturação faça parte disso, é um processo de fatiamento da Caixa. Eles ainda não privatizaram nada – a Lotex, que foi para leilão e ninguém levou, é a Raspadinha, concessão do governo federal. A venda que estão tentando agilizar é do setor de seguros. Eles querem fazer algo semelhante ao BB Seguridade na Caixa, para trazer o capital privado. Depois vai para a loteria, para os cartões, para o FGTS, ou seja, fatia o banco e abre o capital. E aí o que fica é só o banco social, se perde o banco 100% público. Em 2019 a Caixa lucrou R$ 6 bi, e não é um lucro, esse valor é diretamente revertido para o Tesouro nacional em recursos para o Brasil. A Caixa Econômica é o banco acessível ao pobre, assim como o BNB e o BB, que são bancos públicos que desenvolvem políticas públicas. O banco público é uma ferramenta essencial para o Estado brasileiro, não interessa quem é o governante.

Qual a importância dessas reuniões realizadas junto ao SEEB/VCR para dialogar com os bancários e articular a categoria? São reuniões muito produtivas. Nós trouxemos uma reflexão aos colegas no sentido de fazê-los perceber que essa reestruturação está acontecendo com dois objetivos centrais: dividir a categoria jogando um segmento contra o outro, impondo metas autofágicas acima da ação coletiva; e, de certa maneira, criar uma cortina de fumaça para adiantar o lado da privatização. Ou seja, enquanto estamos aqui “batendo cabeça” sem entender direito como é essa reestruturação, eles estão com bancos estrangeiros dentro da Caixa Econômica preparando o lançamento da Caixa Seguridade (ou qualquer outro nome que será dado) e o IPO para abrir o capital dessa nova empresa que seria criada. O processo para barrar a reestruturação e o desmantelamento da Caixa é o diálogo com os setores empresariais e políticos das cidades. Se houver o desmantelamento da Caixa e ficar somente o banco social, ele não se sustenta. Com isso, acontece o fechamento de agências. Precisamos lembrar que a Caixa é o único banco no mundo que possui uma agência em um barco, para atender a população ribeirinha em Belém (PA), levando políticas sociais como o Bolsa Família, o seguro-desemprego, a bancarização de toda uma população que estaria à margem. Se não tivemos uma política suficientemente forte para barrar isso, nós vamos fracassar.

As opiniões expressas não refletem, necessariamente, o posicionamento da diretoria do SEEB/VCR.

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