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O mercado foi derrotado. As ruas venceram

O  eleitorado não pode assistir à imposição da agenda neoliberal derrotada. Lula precisa governar com o povo, não sob tutela do mercado e da maioria reacionária do Congresso.

O mercado financeiro precisa compreender o recado das urnas. A eleição de 2026 não foi apenas disputa entre candidaturas. Foi também confronto entre projetos distintos de País. E o projeto que saiu derrotado foi justamente aquele que pretendia submeter o Brasil a novo ciclo de austeridade, cortes nos investimentos públicos e retirada de direitos sociais e trabalhistas.

O candidato derrotado, que agora também protagoniza fuga vergonhosa, defendia corte de aproximadamente R$ 200 bilhões nas despesas públicas. Sob o discurso de responsabilidade fiscal, a proposta apontava para o desmonte de políticas sociais, redução de programas de distribuição de renda e sacrifício de conquistas que melhoraram a vida de milhões de brasileiros.

O mercado apoiou essa candidatura e essa agenda antipovo. É disso que se trata. Perdeu nas urnas. Agora, não pode pretender impor ao governo vencedor o programa que o eleitorado rejeitou.

A contradição está escancarada. Durante a campanha, os setores financeiros e seus representantes políticos fizeram pressão por cortes profundos nos chamados gastos públicos. Depois da vitória de Lula (PT), voltaram a exigir ajuste fiscal, contenção de despesas e sinais de confiança aos investidores. Mudam os argumentos, mas permanece a velha receita: colocar as contas públicas acima das necessidades da população e fazer os trabalhadores e os mais pobres pagarem a conta.

Não se trata de negar a importância do equilíbrio fiscal, tampouco de ignorar os desafios do endividamento público, dos juros elevados e da inflação. Trata-se de definir quem paga a conta, quais despesas devem ser revistas e a serviço de que projeto econômico o Estado deve funcionar.

Responsabilidade fiscal não pode ser sinônimo de irresponsabilidade social.

A conta não pode cair sobre os trabalhadores

É preciso distinguir o combate aos desperdícios, às renúncias fiscais injustificadas e aos privilégios de política de cortes que atinja benefícios sociais, investimentos públicos, saúde, educação e valorização do salário mínimo.

Há muito a ser revisto nas despesas que favorecem os setores mais poderosos da economia. Mas, para o mercado, quase sempre a tesoura aparece primeiro quando se trata de direitos e políticas destinadas à maioria da população.

O governo não pode aceitar que a expressão “ajuste fiscal” seja utilizada como senha para desmontar o que foi construído. Tampouco pode permitir que a necessidade de cumprir metas econômicas se transforme em justificativa permanente para adiar compromissos assumidos com o povo.

O próprio debate dentro do governo revela essa disputa. Enquanto a área política e os movimentos sociais, incluído ai, o sindical, defendem ajuste gradual, sem sacrificar as políticas públicas, integrantes da equipe econômica e representantes de outras correntes apontam a necessidade de rever despesas ineficientes e privilégios fiscais.

Trata-se de discussão legítima, desde que não se perca de vista a orientação fundamental dada pelas urnas: preservar direitos, ampliar oportunidades e fazer a economia crescer com distribuição de renda.

A ex-ministra Simone Tebet, ao defender a revisão de gastos e das chamadas gorduras do Orçamento, toca em questões que precisam ser enfrentadas. Mas o caminho não pode ser inverter prioridades e transformar os programas sociais em alvo preferencial. É preciso cortar privilégios, enfrentar distorções tributárias e reduzir a transferência de recursos públicos para os segmentos que já concentram riqueza.

Governar com as ruas, não sob tutela do Congresso

O resultado eleitoral também impõe reflexão sobre a relação do Executivo com o Congresso Nacional. A maioria, chamada de conservadora, e de direita na Câmara e no Senado não recebeu das urnas autorização para governar o País no lugar do presidente eleito. Sua composição parlamentar expressa correlação de forças própria, mas não pode servir de pretexto para que Lula abandone o programa que venceu a eleição.

O governo precisa negociar, construir maiorias e buscar acordos para aprovar suas propostas. Isso faz parte da democracia liberal. O que não pode é transformar a negociação parlamentar em sucessivas concessões à agenda reacionária, até que o programa vencedor seja mitigado e esvaziado. Governabilidade não pode significar submissão.

A resposta à essa correlação desfavorável não está em deslocar o governo para a direita, mas em fortalecer sua sustentação popular. É preciso mobilizar trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais, juventude, organizações populares e os setores democráticos que foram decisivos na vitória eleitoral.

A força das ruas precisa se converter em pressão política organizada sobre o Congresso e em sustentação para as mudanças prometidas.

Lula tem experiência política que poucos governantes possuem. Sabe que não basta vencer eleições: é necessário construir força social para governar e enfrentar interesses contrariados. Foi assim que conquistas importantes se tornaram possíveis. Não será diferente agora.

Vitória precisa chegar ao Orçamento

A eleição não pode ser tratada como cheque em branco, mas tampouco pode ser desconsiderada quando começam as cobranças do mercado. O eleitor escolheu projeto que prioriza emprego, renda, inclusão social, valorização do trabalho e desenvolvimento nacional. É esse programa que precisa orientar o Orçamento e as decisões econômicas.

O Brasil não precisa escolher entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social. Precisa de política econômica que combine equilíbrio das contas públicas com crescimento, desenvolvimento, investimento, geração de empregos e distribuição de renda. Para isso, é indispensável enfrentar a concentração de riqueza, rever privilégios tributários e financeiros e fazer com que os setores de maior capacidade econômica contribuam proporcionalmente mais.

O mercado não tem mandato popular. Investidores têm interesses legítimos, mas não podem reivindicar o direito de determinar o programa de governo, muito menos de impor derrotas econômicas a quem venceu democraticamente nas urnas.

A mensagem de 2026 foi clara: a população rejeitou a tesoura neoliberal e escolheu a continuidade de projeto comprometido com o desenvolvimento e a inclusão social. Não faz sentido vencer eleição contra o programa de austeridade e, depois, governar segundo suas exigências.

O mercado foi derrotado. As ruas venceram. Cabe ao governo transformar essa vitória eleitoral em conquistas concretas. Para isso, Lula precisa governar com o povo, fortalecer sua base social e política e não trocar o mandato recebido nas urnas pela aprovação dos que trabalharam para derrotá-lo.

Fonte: Vermelho

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