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Anúncios favoráveis a Flávio Bolsonaro foram pagos em dólar a partir dos EUA

Anúncios não tinham identificação política e alcançaram mais de 82 milhões de impressões na Meta. Falta de rótulo político e pagamento em dólar ferem a lei eleitoral

Publicado em 3 de outubro, na véspera do primeiro turno, um levantamento da Agência Pública revelou uma operação de propaganda eleitoral paga em dólar, com anúncios que envolviam Flávio Bolsonaro e Lula, e que circularam nas plataformas da Meta sem a identificação exigida para conteúdos políticos. A investigação mostra como esse mecanismo foi usado para impulsionar conteúdo eleitoral e, em um dos casos, atacar Lula com uma peça que alcançou mais de 150 mil pessoas.

Ao todo, foram identificados 1.069 anúncios, que consumiram pelo menos US$ 120,8 mil e alcançaram mais de 82 milhões de impressões. Sem a identificação exigida, as peças chegaram ao eleitor como publicidade comum, sem informar quem estava por trás do pagamento ou qual público havia sido escolhido.

Os anúncios circularam de 16 de agosto a 30 de setembro no Facebook, Instagram e Threads. A Meta só os retirou depois de apontar violações de suas próprias regras. Até lá, as peças já tinham alcançado milhões de usuários.

O dinheiro por trás da propaganda

Sem o rótulo político, o eleitor não sabe quem pagou pela publicidade nem qual público foi escolhido para recebê-la. Parte dos anúncios foi financiada pela PagoLink Global, plataforma norte-americana sediada em Delaware e indisponível no Brasil.

Um dos casos revelados pela Pública mostra como essa estrutura foi usada para atingir Lula. Um anúncio pago pela PagoLink usou um vídeo de Nikolas Ferreira com uma fala do presidente retirada de contexto, criando a impressão de que Lula havia ofendido garis. A peça foi impulsionada como publicidade e alcançou mais de 150 mil impressões antes de ser suspensa pela Meta.

Na prática, uma declaração do presidente foi recortada, ganhou outro sentido e passou a circular como propaganda paga, sem que o usuário soubesse quem estava financiando aquela mensagem. O conteúdo não ficou restrito ao alcance orgânico das redes: recebeu dinheiro para chegar a mais pessoas e atingir o eleitorado.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem da Pública, há ainda um problema na própria forma de pagamento. O impulsionamento eleitoral deve ser contratado pelo candidato, partido ou federação e sair diretamente da conta eleitoral. Como essas contas são obrigatoriamente mantidas em reais, o pagamento em dólar por terceiros não se enquadra nas regras.

A legislação também proíbe o uso do impulsionamento para propaganda negativa contra adversários. Em caso de irregularidade, a multa pode chegar ao dobro do valor gasto.

A fiscalização veio depois do alcance

Questionada pela reportagem, a Meta afirmou que seus sistemas identificaram os anúncios por falta do rótulo exigido para conteúdos sobre eleições, política ou temas sociais. A empresa também disse que mantém etapas de revisão antes e durante a veiculação. A identificação, no entanto, não interrompeu a circulação. Os anúncios permaneceram no ar até ultrapassar 82 milhões de impressões. Só depois vieram as remoções.

Ou seja, os anúncios já tinham circulado e alcançado milhões de usuários antes de serem retirados. Em uma eleição disputada também nas redes, a falta de identificação permite que uma mensagem política chegue ao eleitor sem que ele saiba quem pagou por ela. Quando a plataforma age, o alcance já aconteceu.

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